Está rapidamente a tornar-se na minha favorita para este álbum… :)
Mare Serenitatis... Mare Crisium... Mare Ingenii... Mare Magnum... Mare Imbrium... Mare Tranquillitatis...
…a palavra vem porque domina a sensação de que o percurso que poderia, à partida, ser difícil, acabou de se tornar ainda mais complicado…
…mas não me arrependo. Não posso, já não faz sentido. Pudesse eu voltar atrás no tempo e sabendo o que sabia, faria exactamente o mesmo. Porque é o que sinto que devo fazer.
A palavra não é um arrependimento, um lamento por aquilo que fiz. Sou apenas eu a aperceber-me das consequências dos meus actos. A sentir na pele o trajecto veloz desses espinhos que me tocam.
Quero avançar, percorrer todo esse caminho, guiado pelo coração, mas sem ter que dizer palavras… com sonhos que me fazem sorrir, com músicas que inspiram as teclas em que toco, com letras que não afastam as palavras que te escrevo…
E sentir, findo esse caminho, aquele calor acolhedor que nos invade quando as coisas decorrem como é suposto, seja o que for que isso quer dizer…
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
“O Infante”, Fernando Pessoa.
Há dias em que olho para trás, só, assim pelo cantinho do olho, e quando vejo o que fiz, só consigo pensar:
…foda-se!…
Domingo… 3 horas…
Segunda… 3 horas…
Terça… 5 horas…
Quarta… 2.5 horas…
Quinta… 4 horas…
Sexta… Zombie…
…Zombie all weekend…
Sempre me senti mais à vontade no mundo do abstraccionismo do que no universo exigente do encadeamento rápido e lógico. Talvez por aí me sinta mais à vontade a jogar xadrez e seja absurdamente imbecil a jogar damas ou 4-em-linha…
Talvez isto pareça incoerente ou ilógico mas… não quero saber!
Claro que não me impede de estabelecer raciocínios intrincadamente emaranhados e rebuscados… nunca disse que a minha cabeça era simples…
As pessoas que conhecemos ao longo da vida são-nos expostas em diferentes medidas. Algumas conhecemos superficialmente, raspam-nos ao de leve, nunca nos tocando na alma. Outras há que, sem que saibamos explicar, parecem ter o formato certo para surja uma troca simultaneamente cúmplice que se alimenta a si própria e que, só por si, justifica a aproximação.
Hoje aconteceu algo que me deixou pensativo.
Convivo com esta pessoa há vários anos. Somos amigos. Contudo, os nossos feitios são bem diferentes e, talvez de forma unilateral, existe algo no seu carácter que me transtorna, que me irrita solenemente, que me deixa revoltado. E verdade seja dita, com o tempo e a convivência, aprendi a dar menos importância aos aspectos que chocavam comigo e a valorizar aqueles que acabaram por dar lugar à grande amizade que existe entre nós. Foi um processo difícil, moroso, mas relativamente subtil e, presumo, nada unilateral. A sensação que tenho é que conheço o carácter desta pessoa relativamente bem e consigo relacionar comportamentos e reacções com aspectos de personalidade e eventos passados. Mas hoje foi-me dado a conhecer um facto, um aspecto da vida desta pessoa que é, para mim, a pièce de resistance… e de repente, tudo ficou claro para mim. Pequenas reacções, certos comportamentos, um olhar reprovador, um esgar de revolta, um sorriso amarelo e sarcástico, escondendo um rancor perdido e inexplicado… tudo isto, agora tornado (mais) claro para mim… e num segundo, senti-me como se compreendesse parte da sua essência, como se sentisse o que é ser essa pessoa…
A força motriz que nos faz correr mais depressa, saltar mais alto, ir mais longe, que nos faz saber ultrapassar as barreiras, que nos permite perseguir os nossos objectivos, que nos possibilita persistir e finalizar arduamente as tarefas a que nos propomos, tudo isso, é algo que, dependendo do contexto, nos pode corroer, lentamente consumir a nossa paz…
Amargurar a simplicidade de certas coisas da vida, tirar-nos o focus daquilo que nos faz verdadeiramente sentir vivos… abater a profundidade dos nossos sorrisos, a nossa raison d’être…
Vi um pouco de todas estas coisas e então compreendi… senti… respirei fundo e…
… e senti-me como um intruso… senti-me na posse de um poder imenso, de um conhecimento profundo… quem sou eu para saber aquelas coisas, quem sou eu para poder julgá-las, quem sou eu para poder guardá-las e, caso entendesse, fazer delas o que bem entendesse?
…. e senti, na minha pele, a vulnerabilidade daquele ser, daquela vida, daquela centelha, única, tremendamente valiosa e singela… e só quis protegê-la, só quis acariciá-la e colocá-la numa redoma. Senti um calor imenso a subir do meu estômago até ao coração e no fim, no lugar de toda aquela fragilidade, ergueu-se uma montanha de respeito, de plenitude.
E da mesma forma intensa como sentia o choque entre nós, agora sei, tenho a certeza, que preciso e quero manter esta pessoa presente na minha vida.
E saber isso faz-me sorrir, porque não preciso de pensar na razão porque o quero ou preciso de o fazer.
Sinto que é assim, e assim deve ser… e isso basta-me…
Bolha de sabão, ténue e frágil,
és tão pequena e singela...
Num suspiro, a ilusória aparência que se desvanece…
Castanhos como a Terra, em chamas ondulantes,
teus fios lisos enganam os olhos atentos.
Mas são teias, são redes... que agarram e não mais libertam...
...a vociferante malícia que se esconde por detrás dessa compleição.
Ontém ao passear no teu Jardim, vi-a... só, simultaneamente, acompanhada.
Linda, naquele tapete colorido, rodeada por tantas outras
mas única; num tumulto, o despertar de todos os elementos...
Poderia eu colher uma flor tua sem ceder aos teus espinhos?
Um grão de areia no fundo dos oceanos, um único grão no interior
de uma ostra, permite oscular o fruto perfeito da criação.
E a pequena bolha que daí resulta é,
sem dúvida, o bolbo semeado na tempestade,
germinado sob as bátegas das primeiras chuvas...
...pequena pérola, és tu, tão pura e bela, tão venenosa e fatal.
Sempre que sinto a sublime fragrância de tal flor,
nasce-me uma pérola nas mãos, uma após a outra...
Quanto tempo aguentarei sem as repousar nas tuas pétalas?
Queria ser eu... saber quem sou... saber porque digo o que digo...
Queria saber o que sinto... queria saber o que me falta...
...queria saber se me completas... queria saber se te amo,
se só te amo, se só te posso amar...
Queria saber quem sou...
Sou como a areia na praia, repleta de altos e baixos,
moldada pelas pessoas que passam por mim.
E preciso de um oceano, como tu, para me alisar, à beira-mar,
para ser envolto em ti e, de novo, espelhar o céu que nos acaricia.
Sou o símbolo lacónico de uma flor que abriu antes do tempo.
Procuro, bem cedo, o sol que me queima, o calor que me derrete;
e quando a Primavera chega, o meu brilho é baço,
e o vento leva os meus rebentos por germinar...
Tenho no meu interior, segredos bem obscuros, viagens a mundos longínquos,
catapultas para vidas afogadas no mel cósmico do meu ser.
Quero mergulhar na nascente onde tu,
como rio que foge incessantemente para o mar,
estendes a tua mão para a vida e dela recebes
aquilo que mais bem guardas no teu coração...
...o sabor da tua existência...
...aroma que eu quero cheirar,
...calor que eu quero sentir,
...caricia que eu quero fazer,
...amor que eu quero amar...
O tempo entrelaça-se e arrasta-se, contagiando a sua letargia a tudo e todos… corre como um rio e estreita-se até que apenas permaneça um ténue fio de água que receio quebrar…
Dou por mim a silenciar músicas que quero tocar. Olho lá para fora e vejo as palavras que não ouso escrever… afino a garganta, mas as frases teimam em sair, e ficam abafadas nas minhas mãos…
Guardo entre gestos delicados estas ideias que não me cabem na cabeça, sopro-lhes ao ouvido coisas secretas, coisas mundanas, coisas doces, coisas salgadas… fragmentos de um sorriso, de um abraço, lágrimas de pura energia.
Quero fazê-las flutuar até ti, mas há algo que as impede de percorrer o seu trajecto… algo que bebe desse rio de tempo, e o consome…
Observo esse fio que nos liga e embora me sufoque, sorrio…
Sim… fecho os olhos… e sorrio.
Há momentos na vida em que o percurso é simples, praticamente a direito. Mas mesmo assim, insiste-se para que se coloquem umas candeias a delinear o caminho. Parece que há receio em dar esses passos necessários sem uma luz que guie… parece que há angústia se por acaso houver um desvio na rota.
Não chega definir um destino, fixar os olhos nesse ponto adiante no tempo, e desvendar a natureza escondida do percurso que medeia…? Porquê?
Às vezes, o que o coração sente e respira de forma simples, a mente complica… o que um pretende, doce e descomplicado, é rasgado, desvirtuado e entrelaçado pela outra, quase alheia, escrava da sua própria teia.
Liberta-te, mente complexa, e sê livre!!!! Expande-te, absorve o tempo e espaço como teus, vai de encontro ao coração e respira o ar que o envolve, metamorfoseia-te nessa profusão de formas que aí vivem…
Vai…
No outro dia fui à minha antiga casa, aquela casa que me viu crescer, a casa que pertence aos meus pais, a casa que ainda guarda o meu cheiro, a casa por onde, pelas suas paredes desnudadas, ainda ecoam os reflexos de anos e anos de experiências…
No antigo escritório, colados por dentro das portas das estantes, encontrei afixados os poemas que remontam aos tempos de estudante da minha mãe e que, desde tenra idade, me serviam de escape para aqueles momentos em que a repreensão dos meus pais era tal que me fazia chegar as lágrimas aos olhos, ou, por tristeza adolescente ou dor legítima, encontrava naquelas palavras a minha jangada de salvação…
Éramos amigos e tornámo-nos estranhos um ao outro.
Está bem assim, não nos esconderemos nem dissimularemos nada um ao outro.
Não temos de corar por coisa nenhuma.
Somos dois navios, cada um tem o seu caminho e o seu destino.
Cruzámo-nos por acaso, celebrámos juntos uma grande festa
e então os nossos dois corajosos navios repousaram
tão tranquilamente no mesmo porto e sob o mesmo sol,
que parecia terem os dois atingido um objectivo que lhes era comum.
Mas a força poderosa do nosso dever expulsou-nos novamente para mares e sóis diversos.
Talvez não nos vejamos mais ou então voltar-nos-emos a ver sem nos reconhecermos.
Os mares e os sóis diferentes ter-nos-ão transformado.
Estava escrito no nosso destino, que nos devíamos tornar estranhos.
Mais uma razão para nos respeitarmos mutuamente.
Mais uma razão para santificar nossa amizade interrompida.
Existe certamente um astro longínquo, invisível e prodigioso que dá uma lei comum
às nossas pequenas evoluções…
Elevemo-nos até esse pensamento!
A nossa vida é demasiado curta,
A nossa vida é demasiado fraca,
E se temos de ser estranhos na terra, acreditemos apesar de tudo,
na nossa amizade estelar.
Friedrich Nietzsche
Trata-se de um poema que sempre me atraiu e que, ainda hoje, me diz muito, embora o sentido que tiro dele e o significado que supostamente possui, sejam algo díspares.
Não posso deixar de referir, com uma ponta de mágoa, que existe uma pessoa a quem posso dedicar este poema. Para a qual estas palavras talvez se mostrem demasiado apropriadas. E é com alguma tristeza que, passados tantos anos, ainda as sinto como adequadas e justas…
Não obstante, quando penso nas pessoas que são importantes na minha vida, esta poesia dá-me força, dá-me convicção, faz-me querer agarrá-las e mantê-las perto de mim…
Porque se é verdade que é inevitável sentir que muitas pessoas entram na nossa vida e dela saem como folhas caducas na Primavera e no Outono, a verdade é que outras há que, seja sob o Sol escaldante do Verão ou fustigadas pela bátega e pelo frio extremo do Inverno, são perenes… estão lá para nós.
E devemos agarrá-las firmemente, porque aí reside o sopro da vida…
…talvez não possamos extrair delas o propósito da nossa existência mas, sem dúvida,
é delas que devemos beber o fôlego que nos dá força para o concretizar!!…
Vicissitudes…
A primeira vicissitude do dia resume-se ao facto de eu ter postado determinados vídeos neste espaço, com um determinado objectivo, e ter constatado, curiosamente, que uma amiga tinha postado exactamente o mesmo vídeo no facebook. Coincidência? Talvez. Com uma diferença de 20 minutos. Desfavorável para mim. Claro que isso interessa nihil. Primeiramente achei que devia retirar os vídeos deste espaço… já alguém se lembrara de fazer o mesmo que eu… ou vice-versa… subitamente, deixou de fazer sentido. Mas resolvi ignorar essas e outras ideias secundárias, pensar na música pelo seu valor, e deixá-la estar…
A segunda vicissitude consistiu no facto de ter chegado a um certo ponto na noite, felizmente após umas horas de trabalho (senão sentir-me-ia miseravelmente), em que resolvi ficar a ver/ouvir o concerto dos Muse em Glastonbury (2010)… mas isso é só metade… não contente com isso, peguei no meu “walkman”, Muse em altos berros, uma média em punho e fui deitar-me para a varanda onde permaneci a olhar para o céu como se não houvesse amanhã…
Se precisarem de mim, estou na varanda, deitado no chão…
As palavras que aqui deixo são geralmente palavras banais. A sua sequência traduz, na maior parte das vezes, um certo cuidado em revesti-las de uma certa opacidade, em tornar os seus contornos difusos. Porque muitas vezes, não sendo as palavras em si, reveladoras, são-no os pensamentos que estão na sua génese, isto é, para quem, no espaço entre as palavras perdidas, os consiga destrinçar.
Faço-o porque é esse o propósito deste espaço. Porque outrora senti a necessidade de ter um meio de exteriorizar e eliminar do sistema certos pensamentos, certas ideias. E porquanto exista essa necessidade de deslocalizar esse objectos cognitivos, cresce em paralelo uma sede de ser ouvido, de ser lido, de sentir que a parede, aparentemente inerte, afinal tem ouvidos. E nessa busca de algo que completa o propósito, reside simultaneamente o motivo da sua aniquilação.
Eu passo a explicar. Somos performers em palco. Este é o nosso palco. Este é o nosso espectáculo. Eloquentemente, de forma solta e despreocupada, palramos e então estabelecemos o nosso monólogo. Não vemos o público, não o sentimos mas achamos que ele está lá. E isso chega-nos. Dá-nos o propósito. E por um tempo, tudo está como devia estar.
Mas chega o dia em que, ao terminarmos a nossa actuação, olhamos para a audiência e vemos os seus olhos, reconhecemos os seus rostos. E sem que nos apercebamos, já estamos condicionados, já sabemos que estamos na mira. E no próximo espectáculo há qualquer coisa que nos detém…
Nessa fase sentimos que se perde o efeito libertador. Por vezes queremos ir mais longe, descobrir um pouco mais o manto… mas esses olhos seguem-nos e a contenção é inevitável.
Por diversas vezes, quis derrubar essa barreira, libertar-me dessa pseudo-mordaça que me castra as letras. Ainda não tive coragem. Mas sinto em mim essa vontade a crescer, como se de uma bolha se tratasse…
Talvez amanhã acorde e, ofuscado pelas luzes, inebriado pela respiração daqueles que comigo partilham o anfiteatro, resolva fechar os meus olhos… respirar fundo… e fazê-los desaparecer…
e aí… sorrir e…
…quem sabe?
Falar, cantar, saltar, dançar como outrora, declamar todos os poemas, libertar-me na magia dessas palavras perdidas…
Há dias em que parece que tudo nos corre mal.
Há dias em que quando finalmente chego a casa, me pergunto porque raio é que saí de manhã, se a única coisa que consegui fazer, foi piorar as coisas? Nesses dias, o que quero é que tudo acabe depressa e entregar-me à cama, tentando afastar tudo isso, procurando mudar a ficha.
No dia a seguir a esses dias, acordo e penso que não quero ir, deixem-me estar aqui sossegado, parece que o melhor que se pode fazer, é nem sequer sair da cama.
Só apetece balbuciar: “…que se foda”, virar-me para o outro lado e deixar o mundo em paz…
Há dias em que tudo nos corre mal.
Quero escrever mas não consigo…. as palavras alinham-se na minha mente e… antes de saírem, antes de se materializarem, atropelam-se e ficam perdidas algures…
Vou… em busca de algo… e espero voltar… cheio de palavras, de cheiros, de paladares, de sentimentos, de sorrisos…
Sinto-me a enfraquecer, a adormecer… tudo o que me apetece agora é parar… e flutuar…
Schhhhhhhhh… não digas nada… será o nosso segredo… ninguém precisa de saber… o que guardamos só para nós… eu e tu… entre nós fica… tu és metade do que és… eu serei a outra metade… e juntos… seremos as partes duais de um todo… mantém-te assim, misteriosa como és… inspiras a incerteza, a dúvida, sem que se perceba do que se trata, se um sorriso iluminado e um olhar triste e taciturno… ou o contrário…
Hoje é dia de casamento. 21 de Julho, um dia fantástico para uma pessoa se casar… Faz cerca de dois anos desde que estive num casamento pela última vez.
Hoje em dia, para o meu círculo de pessoas conhecidas, esse tipo de eventos é cada vez mais raro… Sem dúvida, houve ali um pico, de cerca de 3-4 anos, em que parecia que toda a gente se estava a casar… agora, e com toda a lógica, a conversa do dia são os filhos, e, já nada estranho, segundos filhos…
Não posso deixar de olhar para tudo isto e sentir uma leve asfixia, uma pequeno par de mãos a apertar-me o pescoço, e querer, subitamente, aliviar o nó da gravata (que diga-se, dada a falta de prática, dá uma carga de trabalhos a fazer… mas que é daquelas coisas que tem que ficar perfeita…)…
O que move esta minha quasi-repulsa não são ideais meramente filosóficos, políticos, religiosos ou de qualquer outra sofia… O que está na génese dessa minha retracção, dessa minha reacção, é algo bem mais prosaico, mas simultaneamente, de dimensão humana. Tem apenas a ver com a minha experiência e a forma como ela me afecta, enquanto indivíduo deste mundo, desta sociedade, deste universo, desta realidade…
Mas que não fique equivocado o sentido que se poderá, eventualmente, tirar das palavras que deixei no parágrafo anterior… a união de duas pessoas e os frutos que possam decorrer daí não é algo que eu não contemple com admiração e da qual seja incapaz de extrair um sentido altamente galvanizante para a vida de alguém… não… faço-o quando vejo tantos amigos juntos com as suas novas folhas, sinto como minha a sua alegria em poder trazer ao mundo algo de seu e que, na sua individualidade, perpetuará a essência e as raízes que lhe deram origem…
Este conceito não me assusta, este assunto não me repele, esta ideia não me afasta… não! Na realidade, é algo que eu sinto que faz parte da minha vida. Contudo, o ritmo e a ocasião ditam a forma como as coisas se procedem e sem dúvida que neste momento o que governa a minha vida são conceitos distintos de todos estes que temos vindo a falar.
Há um abismo demasiado grande entre mim e esses amigos… não uma separação física, mas antes uma separação rítmica, o tempo corre de forma diferente para eles… Eu fui a par e passo com eles até uma altura, em que eles prosseguiram e eu voltei atrás… contudo, não perdi as experiências, não perdi os anos de convivência, somos equivalentes do ponto de vista do tempo, contudo a experiência e a altura em que esses momentos foram experienciados é notavelmente diferente. E isso faz com eles e eu sejamos pessoas totalmente diferentes.
A diferença é que antes eu temia esta diferença. Agora ela faz parte de mim e não posso evitar sentir-me vivo cada vez que penso nela.
Há dias em que me faz sorrir, há dias em que me faz chorar… talvez nesses dias me tire o sono e me deixe a fitar o tecto monótono do meu quarto. Mas nos outros, mergulho nos sonhos multicoloridos e encontro a mesma paixão ao observar a Lua que me adormece, e o Sol que me acorda…
Ontem interrompi o meu trabalho por umas horas e dediquei-me à tarefa importante e prazenteira de ir jantar e beber um copo com alguns amigos.
Utilizei o termo “tarefa” e apercebo-me agora que a sua aplicação não podia ser mais desadequada… não se trata de uma tarefa… é simplesmente, o que somos. O que queremos. A forma como encaramos a vida e como nos articulamos, na sua marcha através do tempo, entre os seus tentáculos plenos de vicissitudes que a polvilham…
Não adianta escondê-la, omití-la ou mascará-la. A árdua realidade é que à medida que acumulamos tempo nas nossas vidas, passamos a sentir, cada vez mais, a sua passagem… inicialmente era uma leve brisa, como que um ondulante tecido, acariciando-nos a pele, praticamente sem nos tocar… agora o seu contacto é inevitável, impossível de ignorar, embora possa ser bom e pacífico… ou angustiante e dilacerante.
Posso dizê-lo, todos passamos dos 30, somos ainda jovens – porque o somos, aos olhos da sociedade, porque nos sentimos como tal e, mais importante, porque o escolhemos ser nas nossas mentes, mesmo que tal não derive de um mecanismo cognitivo. É o que somos, não o devemos temer, mas sim abraçar a realidade com força, num enlace apertado, como dois amantes que não se querem separar…
Uma dessas pessoas com quem estive queixou-se de que “já não era tão feliz como há uns anos atrás”. Que a vida como ela é, nos leva a locais onde as preocupações, o stress, a família, o trabalho, as nossas ambições, os nossos sonhos, ocupam um lugar de destaque, mas que às tantas não somos tão felizes, porque estamos preocupados com tudo isso, e nem sempre vivemos aquilo que nos diz respeito com a intensidade que, provavelmente, deveríamos. Eu julgo que à medida que avançamos, cada vez sentimos mais o aperto, o estreitar do caminho, a perda de espaço de manobra, especialmente se nos sentirmos algo presos pela vida que temos.
Face a este desabafo, penso no meu próprio percurso… mas tenho uma certa dificuldade em temporizar… é certo, consigo recuar, por exemplo, 5 anos… 3 anos… 2 anos… e nesse período, talvez pudesse ter um estado de espírito semelhante… mas não agora… os últimos dois anos foram, para mim, como um atropelo de eventos, de decisões, de emoções… tudo se desenrolou de forma muito rápida e loucamente intensa… Percebo que todo esse turbilhão se deve essencialmente à rotura que houve e tudo o resto é consequência do necessário ajuste posterior.
Chegar a esta fase e experienciar essa quebra no continuum fez com que tudo assumisse novas proporções. Não deixo de sentir a presença e existência, na minha vida, de muitas das angústias espelhadas no desabafo dessa pessoa amiga… Vejo-as à minha frente, sei que terei de conviver com elas. Mas não as receio, não temo que elas tomem conta da minha vida… cada vez mais sinto a capacidade de me libertar delas… sinto que quero e que posso viver, não por causa delas… mas apesar da sua existência...
E tão rápida é a passagem do tempo e da vida pelos nossos sentidos, pelos nossos corpos, pelas nossas mentes, pela nossa pele, que quase parece um luxo esquecido poder desacelerar a textura do tempo… parece um doce proibido poder saborear cada gota desse elixir temporal, e fundir-me em cada instante, com esse momento presente… e vivê-lo sinceramente, como se não fosse necessário pensar no próximo instante.
Perder-me no tempo, deixar a vida espraiar-se diante de nós, escolher cada flor, cada pedaço como um só, e abraçá-la num laço terno, prolongado e intenso.
Faço-o como se nada mais houvesse, num gesto exuberante de querer extravazar esse sentimento.
E quando olho para o horizonte sei, tenho a certeza, que não o trocava por nada neste mundo…
O comportamento social humano é espantoso. É transcendente. É de tal forma expansivo e intrincado que é difícil focar-nos num ponto e a partir daí percorrer as suas inúmeras ramificações, chegar ao fim e sabermos onde estamos… Mais que isso, articula-se em vários planos, para fora deles, conduzindo-nos a questões de mind before matter e de matter before mind…
Os sinais estão lá. A mente humana é pensante por natureza. Aqueles que nasceram agraciados pela dádiva (ou maldição) de terem uma relação mais prosaica com os pensamentos, talvez não se identifiquem com o que pretendo focar mas, por outro lado, esses, eu coloco-os na caixa que tem o rótulo a dizer: “Tranquilos”…
É para aqueles que têm uma relação simbiótica com os pensamentos, uma dependência de espraiar o processo cognitivo mais simples, uma irresistível vontade de expandir de forma tentacular as suas ideias, que estas palavras são dirigidas.
Cedo se manifesta, ou tardiamente se observa, mas a dor, essa, conhece-la desde muito cedo. Os pensamentos não cabem na mente, ultrapassam-na, querem trespassá-la. O mundo exterior contém-nas mas rapidamente se retoma a tempestade, o turbilhão interior. Alguns cantam. Outros tocam. Há aqueles que constroem coisas. Há aqueles que as destroem. Outros há que as espelham, pintam, desenham. Depois há os que escrevem. Os que escrevem. Trata-se de uma focalização, de uma compactação, é como se conseguíssemos transformar as ideias num líquido, depositá-lo numa jarra mental e tranquilamente vertê-la para fora da cabeça. Escultores de pensamentos.
E que alívio se sente depois!!!!
Mas tudo isto é apenas uma parte da questão. Refere-se aqui apenas uma forma possível de funcionamento. Mas e o lado comportamental de tudo isto?
Há uma distinção pura que se traduz num simples facto: receptores. Externos, claro.
Por um lado, a necessidade, a vontade de querer exteriorizar esta ideia, porque nos abunda a mente, porque ao fazê-lo, a transfiguramos e nos certificamos da sua validade. Por outro lado, precisar de sentir que alguém a recebe, independentemente de providenciar feedback.
Aqui traço uma linha, que separa as pessoas que procuram libertar aspectos fundamentais das suas mentes para o meio social, daquelas que fazem o contrário, procuram colocar o meio social dentro das suas mentes, dentro das suas vidas.
E na minha opinião, erradamente…
Não consigo. Por inúmeras vezes procurei alterar a forma como tento abordar o tema, mas simplesmente nada parece adequado. E cada vez mais me convenço de que não se trata da abordagem, mas sim do próprio tema. Ou a falta dele.
Se bem que tornei claro noutras ocasiões o quanto este espaço serve de repositório de ideias e pensamentos, apercebo-me de que já não quero exteriorizar esta ou aquela ideia. Quero guardá-las só para mim. E beber o seu fluxo de energia. E sorrir, enquanto sinto o seu calor a acariciar-me por dentro, enquanto respiro o seu fulgor…
Já não quero expulsar aqueles pensamentos, agora quero que eles façam parte de mim. Que sorriam comigo, que chorem comigo. O meu sangue transporta essa luz e canaliza essa dor… mas nesse palco de emoções, quero encontrar a minha paz…
Já não falam, já não escrevem, já não fixam uma imagem… absorvem-na… e através dela experimentam o mundo…
Quero que se enebriem com o perfume, que se confundam com o toque, que imortalizem esse olhar… que transpirem esse aroma de que é estar vivo!!!!!!
E que nesse oceano de paixão encontrem a sua razão de ser…
… as palavras tão pouco te dizem… a sua essência é confusa, difusa, esquiva.
Nas suas formas não encontras uma forma, antes um sentimento. E esse sentido preenche-te, faz-te sentir uma energia que percorre cada centímetro do teu corpo. Respira-la, dás-lhe vida. E num rasgo de movimento, tudo é belo e apaixonante…
E assim nasce um sorriso…
Hoje cheguei a casa e apeteceu-me saborear um pouco de vinho…
Pensar naquele travo ligeiramente acre, e simultaneamente doce, suave e apaziguador, despertou em mim uma sede sensorial. Nada comemoro ou celebro, simplesmente achei que aquela tertúlia alcoólica e perfumada, liderada por todos aqueles taninos, iria complementar na perfeição o meu estado de espírito. E elevar-me os sentidos. E amplificar as emoções. E expandir, em cada toque da minha língua no seio daquele líquido repleto de adagas cortantes, a sensação inspiradora de estar vivo…
… mergulhar no coração e encontrar sensações perdidas mas nunca ausentes… e, recordar-me e recitar com fulgorosa paixão, os versos do Poeta:
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.
E sentir, em cada letra, em cada verso, em cada poema, em cada canção, o calor, o fervor, o fervilhar desse sangue que quer amar mas que não sonha atingir, que abraça o mundo mas depois foge e esconde-se dele, com medo, com receio…
…de amar, de ser amado.
Há dias em que o que habita a minha mente e o meu corpo excede a minha capacidade de transferir para palavras… Por um lado, por vezes a informação é tanta que não encontro forma de conseguir canalizar tudo isso. Por outro, acontece ocasionalmente não arranjar coragem para o fazer. Mas ainda assim, a vontade e a desejo são tais que é imperativo arranjar uma alternativa.
Muitas vezes, de tanto insistirmos, de tanto procurarmos algo, acabamos por encontrar. Ou então as coisas que nós procuramos encontram-nos…
Hoje resolvi recorrer a uma música para satisfazer a minha ânsia de partilha, de “purga” mental.
Esta música faz-me voar… faz-me sentir a flutuar, faz-me querer sair do meu corpo e todo eu ser apenas uma essência. Leva-me para outros mundos… puxa pelos meus sentidos…
Os dias são mais silenciosos, agora.
Depois do berro, já não oiço aquelas vozes a ecoarem na minha cabeça e ainda menos falo. Parece que escuto calmamente esta ausência, acompanhada de um pequeno ruído de fundo, que é, em boa medida, o conjunto dos comuns sons que habitam o nosso mundo.
Saio de casa e procuro preencher esse vazio com música, com algo que tenha a capacidade de me distrair, de me impedir de flutuar até aquele cantinho na minha mente…
… esse cantinho que me tira o sono, que me prende a atenção, que me desconcentra, que me transporta para o mundo dos sonhos em pleno dia, que me rouba a paz. Esse cantinho, onde se escuta a voz do coração, onde as lágrimas são simples versos deste grande poema, e em que, como mar e céu, nele se reflectem as estrelas, com o seu cintilar extasiante, a sua energia radiante e sorrisos multicoloridos, e, simultaneamente, nele se espelham as agruras das profundezas, as tristezas mais depressivas, os olhares mais desesperantes deste universo.
Fujo constantemente desse recanto e a ele retorno a todo o momento. Mas o silêncio ajuda-me a pairar, perigosamente perto, é verdade, mas sem nunca nele cair e sem que tenha de entregar-me aos desígnios desse monstro que me consome.
E eu quero pairar e flutuar para longe…
Hoje dei um berro. Não aguentei mais e dei um berro. Não um berro literalmente, pois a minha voz manteve-se serena. Aliás, foi melhor que isso: a minha voz manteve-se absolutamente silenciosa e, mesmo assim, soou um berro aqui dentro, como se estivesse a utilizar os meus pulmões em toda a sua plenitude. Para completar o cenário, resta acrescentar que, embora silencioso, o grito foi ouvido perfeitamente.
Andava a prender o fio do controlo há muito tempo, andava a segurar o chapéu da restrição há tempo demais. Por diversas vezes procurei oferecer a quem não aceita, tentei explicar a quem tudo sabe, almejei dizer a quem não escuta. E em cada tentativa encontrei aquela resistência teimosa.
Até hoje. Apeteceu-me mandá-los todos à merda. E assim fiz. Mandei-os todos atirarem-se à doca. Mas sempre de forma educada e tentando não perder a compustura.
Dediquei alguns momentos do dia de hoje a reflectir sobre este assunto. Se a nossa presença pudesse ser materializada num contínuo, ela não seria um meio totalmente liso. Apresentaria pequenos espaços, criando como que uma superfície rugosa, com reentrâncias e saliências. Esses espaços, ou reentrâncias, permitem uma “visão” mais íntima da nossa presença, da nossa essência. E geralmente apenas permitimos que nelas permeem as pessoas mais próximas, mais importantes. O acesso aos nossos espaços é algo com que nos sentimos à vontade, não fossem pessoas que nos são queridas, da nossa esfera de confiança. O problema surge quando estas começam a querer alargar o nosso espaço. Aí configura-se o conflito.
Por vezes revela-se necessário restituir a “pureza” inicial desses nossos espaços. Daí o berro.
E por uns tempos, voltamos a estar em paz.
Quando olho para este espaço penso, por vezes, que tive muita sorte em conseguir, mais ou menos, manter uma certa coerência no tipo de discurso ao longo dos tempos. Claro que o discurso em si não pode necessariamente ser o mesmo e supostamente este evolui – para o bom ou para o mau – com o passar do tempo. E falo em sorte porque até hoje nunca defini de forma determinística exactamente qual o propósito, mote, ideologia deste blog. É verdade que os primeiros posts foram de natureza um pouco mais mundana, em que eu procurei satirizar alguns aspectos da vida que me afectavam no momento. Por vezes pareceu-me conveniente focar certos assuntos apenas porque, de alguma forma, achava relevante partilhar e comentar. Mas ultimamente, julgo ter descoberto a verdadeira vocação deste blog. E é irónico como o blog foi lançado nesses moldes, desviou o seu caminho e quatro anos depois, convergiu para o ponto de onde se tinha lançado.
Agora entendo. E não precisei de pensar muito sobre o assunto. A evidência prostrou-se diante dos meus olhos e a realidade tornou-se inegável. Não se trata de partilhar, comentar, desabafar sobre aqueles assuntos – mundanos ou não – que podemos discutir com outras pessoas, no facebook, num programa de chat, whatever… Não! aqui o que se faz é extravazar e colocar em palavras aquilo que não se quer verbalizar oralmente ou que se acha que ninguém está minimamente interessado em ouvir. Pois assim, está escrito. E só lê quem quer. Não há receios de ofensas porque ninguém verá ninguém a ir-se embora e a abandonar a leitura como se de uma conversa se tratasse.
Chegado a este ponto, olho para o que acabei de escrever e pergunto-me qual é, afinal, a grande relevância de ter escrito o que acabei de escrever?
Sorrio e penso: “O que interessa? Não quero saber! Não importa o que está escrito nem como está escrito…”
O que é verdadeiramente relevante é a razão porque está escrito… esse propósito liberta-me… e quando isso acontece, cumpre-se o objectivo…
Há algo de irónico e até talvez um pouco sarcástico na forma como o puzzle da vida se constrói.
Houve alturas na vida em que eu conseguia ver claramente uma vastidão de espaço (e de tempo) para frente no meu percurso. Apercebia-me da planície longa e serena que me esperava. E lá ao fundo, como que escondido por espessas cortinas de fumo, ficava o Incerto. Olhava em frente e vislumbrava, com contraste nítido, ora planície, ora a barreira do desconhecido. Não a temia, nessa altura. Pois a visão da planície deixava-me tranquilo, seguro e confiante.
E eis que o dia chegou, sem que me apercebesse objectivamente, sem que me desse ao trabalho de me preocupar, em que me deparei frente a frente com aquela cortina desconhecida, com aquele véu de incerteza. E nesse momento ficou claro para mim: não há como escapar. Tenho que continuar.
Transpus essa fina capa que me cegava o futuro. E do outro lado, os meus pés perderam a sustentação, senti-me em queda-livre, pois apenas encontrei o vazio… e de repente, tudo se transformou…
Agora não vejo planície, a cortina opaca também já não a encontro. O mundo parece diferente, o ar parece menos caloroso, menos aromático, os olhos teimam em não focar. Resta agora uma ténue neblina, muito sublime, tão leve e fina que se torna quase imperceptível. E depois cores. Muitas cores. Lá ao fundo, já nada vejo. Sinto apenas um inexplicável impulso que me guia em direcção aos sons e luzes distantes que os meus dedos não tocam, os ouvidos não escutam e o coração não sente.
Peça a peça, então, eu direi. Várias vezes. Quantas vezes? Construir, desconstruir, reconstruir, destruir… rumo à tela final…
E assim se chega ao fim de mais um ciclo. É o fim do mês, é o fim do primeiro trimestre e, concidentemente, o final de outros ciclos menos evidentes. Não é o fim do ciclo maior – esse, ainda vai arrastar-se por mais umas semanas, uns quantos meses. Mas os pequenos ciclos começam e terminam dentro desse, como os dias num mês, os segundos numa hora. Pequenos ciclos cujo intermitente cintilar popula e marca, quase que compassadamente, a lenta marcha do tempo. Alguns desses ciclos são efémeros, extinguindo-se uma vez atingido o ponto de partida. Outros aparentam ser eternos, reiterando o seu percurso, com o mesmo ímpeto e determinação com que outrora o haviam iniciado.
Vejo estes ciclos não como formas geométricas per se, mas como o rasto luminoso de milhares de pequenos pontos de luz, cada um definindo o seu ciclo. E no seu movimento ondulatório, imprimem movimento ao conjunto.
O que parece um progredir constante, sereno, lento e compassado é, na realidade, o produto de milhares de pequenos destes pontos circulando ora a favor, ora contra o movimento perpétuo do tempo.
Quando muitos ciclos se alinham, tudo parece andar mais depressa, mais intenso, mais efusivo, mais vivo. Os pontos brilham com intensidade redobrada. As cores são mais marcantes que nunca…
E eu juraria que, nessas ocasiões, se consegue vislumbrar também um pouco do trajecto do Grande ciclo, à frente do tempo, para lá do Agora.
Silêncio… apenas o toque das gotas de chuva lá fora contra o parapeito, contra o vidro, contra os meus ouvidos…
Mas é só isso. Já não ouço as melodias, já não perspiro as angústias em tons de cinzento que assolavam a minha paz, já não me atormentam aquelas luzes, como olhos demoníacos, que ladeavam o meu caminho…
Agora ouço um silêncio tranquilizante, ocasionalmente interrompido por umas suaves notas musicais que os meus dedos imprimem no tempo…
Há batalha, há confronto? Sim, ainda há. Mas tudo é travado aqui dentro. O coração bate, o sangue flui, ora compassadamente, ora descontroladamente frenético. Mas agora consigo ouvir… e acompanho o ritmo, canto em uníssono, danço o Jónio, o Frígio, o Dório ou o Mixolídio…
E agora estou inebriado pelo cromatismo do sopro da vida.
Eu tentei. Julguei que a viagem seria directa e sem percalços, sem prestar atenção a todas aquelas pequenas luzes que torneiam o caminho. Simplesmente ignorá-las e seguir em frente…
Mas não é assim que acontece. Apesar de os meus passos encontrarem um trilho cujo destino consigo vislumbrar do ponto onde estou, o percurso, esse, é marcado inevitavelmente por pequenas contrariedades… A força do destino impele-me, mas as luzes não são de ignorar. Como pequenos olhos nas profundezas da floresta, fitam-me, recolhem a minha atenção. Mas não me impedem de avançar. Cabe a mim decidir qual o impulso a imprimir ao próximo passo para, um após o outro, conseguir atingir a meta, não obstante o caminho.
Esses olhos agora seguem comigo, enquanto me movo. Não me impedem. Não me guiam. Mas cantam-me uma melodia que me inebria, que me faz sonhar. E que me acorda, a meio da noite.
Eu penso em duas palavras, duas apenas. Que têm o poder de me fazer parar. Que ensombreiam qualquer caminho. Mas que me trazem também inspiração e calor.
Duas palavras que respiram uma contra-melodia que silencia as luzes…
Moja bieda.
Sou um junco. Um pequeno junco.
Navego os sete mares em busca do meu oceano e, quem sabe, um bom porto.
E nestes dias cheguei a zonas de águas desconhecidas ou, pelo menos, há muito esquecidas. Após uma viagem cansativa e algo dolorosa, o espelho de água liso que o casco interrompe transmite uma sensação de calma, de paz, de serenidade. Ouve-se um silêncio magnífico, apenas o som da água abraçando-me à medida que a percorro…
Mas, ao aproximar-me de terra, apercebo-me de que existe uma pequena vibração, um ligeiro tumulto, um quase imperceptível burbulhar na água. Como se houvesse algo ali expectante, adormecido e que pode ser despoletado a qualquer momento… E este fervilhar intensifica-se com o encurtar da distância.
Embora me custe dolorosamente, concluo rapidamente o significado de toda esta agitação: devo procurar outras águas, apesar de estas permanecerem calmas, apesar de serem repletas de vida. Não posso desembarcar aqui, meu caminho segue, o meu objectivo mantém-se. Mas poderei voltar sempre que quiser, e apreciar o fino e sedoso lençol de água, no qual se espelha o céu e as estrelas e, através dele, sentir as delicadezas da vida, contemplar as paisagens do sonho e fundir-me com as suas formas.
Mas terei sempre de voltar, ou de novo seguir e buscar, pois apenas fará sentido permanecer naquele que é verdadeiramente o meu Mare…
Nunca tive muito jeito para desenhar. Nos breves momentos em que me dispus a corajosamente tentar transpor a minha percepção da realidade para o papel, fiquei sempre com aquela noção de que havia algo que faltava. Um traço para aqui, um leve toque do lápis para ali, um pequeno esfumado aqui, um contorno inexistente mas que a mente vê claramente…
E sempre senti que onde as limitações físicas podiam ser ultrapassadas – aprendendo novas técnicas, apurando a forma de utilizar os instrumentos – , havia ainda aquela parte dentro de mim que quer exprimir-se mas que não consegue ser canalizada para o mundo material.
E falo especificamente de desenho porque, embora a pintura, em toda a sua abrangência, seja uma arte que consegue deixar-me no meio do deslumbramento e despertar algumas emoções, nunca foi capaz de igualar a plétora de sentimentos que o desenho a lápis move no meu interior.
Existe uma magia poética, um calor imanente que eu não consigo sequer descrever. Provavelmente poderei estar errado, mas para mim, há algo fascinante, diria construtiva, na forma como o traço, aparentemente simples e puro, consegue permear tal dimensão a toda a composição, ao desenho final. Harmonia, profundidade, sentimento, calor.
Talvez se pudesse dizer mais sobre isto, e até muito mais sobre a pintura e outras formas de desenhar, mas eu não tenho dúvidas:
O lápis é o meu eleito.
Uma ideia, um sentimento. No corpo, na mente. Na alma, no coração.
Umas vezes, o que um suspende, o outro sustenta. Outras vezes, o que um nutre, o outro faz retrair.
E os dois agentes que compõem este cenário são como peças móveis neste puzzle.
É como fazer castelos de areia na praia. A mesma água e areia que definem a sua existência, são também a mesma água e areia que os reclamam de novo. E nesse ciclo, a forma nasce e desvanece como uma ideia, como um sentimento.
Mas não a sua existência.
Os olhos são exímios em focar um único ponto no espaço.
Captam luz como uma grande angular, e conseguimos “ver” o mundo que nos rodeia. Objectivamente, apenas um pequeno ponto capta verdadeiramente o foco do nosso processo nervoso, e é convertido em impulsos eléctricos que constituem o expoente máximo do que a nossa vista consegue “sentir”. E os olhos fazem-no constantemente, e com toda a facilidade, a não ser que os obriguemos a desviarem-se do seu instinto natural ou que sejamos portadores de uma condição qualquer que fragilize a nossa visão.
Já a mente, essa, gosta naturalmente de se espraiar e de não focar nada em particular, sendo necessário um esforço mínimo para concentrar os raios mentais sobre um alvo específico. Dispersa é a sua configuração preferencial. Atenta, alerta. Tudo captando, nada focando. A não ser que a obriguemos a isso.
No meu caso, o esforço não é mínimo. Ou não está a ser. Mas não me dou por vencido… vou fechar os meus olhos e converter a mente. E procurar centrar-me num único ponto. Em frente…
…em frente…
…Vénus e Júpiter alinham-se no espaço, para nosso deleite, ou daqueles que se deixam levar pela doce e poética fragrância dos astros…
Será que este evento – esporádico à nossa escala, harmonioso e determinístico à escala do universo –, nos diz alguma coisa? Terá este ponto no domínio espaço-temporal um significado especial, ou será fruto da nossa natureza, como pequenos maestros de luz, a querer ouvir a melodia cósmica?
É inevitável sentir-me siderado pela vastidão do espaço e pelos incontáveis segredos que esconde…
…é reconfortante pensar que nos locais mais recônditos desse cosmos poderá haver algo inimaginável para mim e para os meus pares, e que, no entanto, a substância de que essa imensidão incomensurável é feita, não difere em nada daquilo que me faz sorrir de manhã, ou daquilo que me tira o sono à noite…
hum… espaço… leva-me contigo.
Percorro os dias com uma visão um pouco turva, quiçá pelo facto de me faltar esse quanto de lucidez, mas, essencialmente, por as transições da noite para o dia se assemelharem agora a uma manta de retalhos… vários mares de paz, interrompidos, de 2 em 2 horas, por despertares premiados com a visão lúgubre do tecto do meu quarto… e de novo paz… e novamente, gesso e tinta branca…
Mas a meta está estabelecida, agora é claro para mim.
E, no meio de toda esta turbidez, eis que se imprime com impressionante nitidez, o caminho a percorrer. E nele me lanço, como a sede à fonte…
…obstinado, devoto, determinado, iluminado, silencioso, incansável…
Aaaaahhhhh! Mente irrequieta malvada!!!!!
Deixai-me! Porque insistis em tomar conta de mim, porque sois tão invasora?
Deixai-me ir atrás do fogo e sentir a sua queimadura, explorar o gelo e sentir o sangue a parar, ver a abelha, tocar-lhe, e sentir a sua ferroada. Virar-me contra o vento, levantar voo, e tombar no chão como uma pedra…
Porque traís, aquilo que é a vossa essência, de onde emanais, a fonte do vosso ser? Porque receais a tempestade?
Sois minha para sempre, porque me receais perder?
Tenho a mente irrequieta. Preciso de concentrar-me, mas o foco dispersa-se pelos inúmeros pensamentos que me bombardeam a cabeça.
“Por hoje, já chega.” diz-me a mente irrequieta.
E por isso, decido que sim, já chega. Vou deitar-me e repousar, tentando não deixar que todas essas ideias me tirem o sono. Ou que o transformem numa má experiência…
Mas não sem antes vir aqui e livrar-me de alguns desses diabos, para que descanse não só o corpo, mas também a mente.
Não consigo. Os pensamentos não têm ainda uma forma bem definida, são como uma espécie de neblina, um fumo que me confunde a visão interior e, dessa forma, não posso extraí-los como tencionava.
Ainda não. Ainda não estou pronto.
Atormenta-me saber que terei de conviver com eles mais um pouco, receando que estes me visitem durante a curta pausa que separa o hoje do amanhã.
“Coragem” diz-me a mente irrequieta, “fecha os olhos e deixa que esses pensamentos permeem o teu espírito… só assim poderás dar-lhes forma e encontrar o Mar que procuras…”
Assim farei.
O presente mais não é do que uma perturbação no espaço-tempo, atrás da qual nós seguimos, como espectros. Navegamos ligeiramente atrás da crista desta onda perturbadora, e situamo-nos algures ali entre a Crista da Clarividência e o Mar do Esquecimento ou do Passado… Esta posição faz com que a nossa vida seja vivida na sombra do futuro, apenas o suficiente para não ficarmos perdidos no passado.
O presente é como um raio que percorre o eixo do tempo, deformando tudo na sua frente – o espaço e até mesmo a própria textura do tempo –, implacável, invencível, inabalável.
E este raio avança, transformando futuro em passado, em direcção ao horizonte.
Quero prolongar este momento ad eternum, quero reviver este instante em cada milisegundo do tempo que começa agora. Mil raios de luz, penetrando em cada poro da minha pele, multiplicando-se em todas as direcções pelo meu sangue e, por ele, chegando a cada cantinho, mesmo os mais remotos, do meu ser.
Propagar este calor, esta energia que radia e, através do meu corpo, perpectuar a sua onda de emoção…
Sentir que cada momento é único e que, no seu conjunto, nenhum o é, numa singularidade de injustiça cega, que transcende qualquer dimensão – seja espaço, seja tempo – e, nesse ponto de puro pecado e imaculada pureza, encontrar o seu destino…
Já ouvi, várias vezes – e de origens diversas, dizer que não se deve tomar decisões à noite. Que tudo aquilo que nos parece boa ideia dizer, mudar ou fazer à noite, no dia seguinte passam a ser más coisas de se dizer, mudar ou fazer.
Não posso dizer que discorde disso, até porque já tive a oportunidade de conseguir deixar todas essas coisas para o dia seguinte e, de facto, parece que tudo é diferente.
Mas as ideias são sempre as mesmas, simplesmente a nossa percepção delas é que muda. Já me explicaram que à noite, o nosso estado de espírito é mais depressivo e tendencialmente vemos as coisas com menos clareza.
Na minha experiência, a “depressão” nocturna origina coragem, inconsequência e uma espécie de amplificação dos sentimentos – associado a alguma estupidez. No dia seguinte, tudo se converte numa aparente lucidez, ponderação e aquela sensação de que nada do que pensámos na noite anterior fazia sentido.
Continuo a concordar e, como princípio, parece-me convincente.
Mas continuo a achar que a arrepender-me de alguma coisa, há de ser sempre de não ter levado as “boas ideias” para frente.
“Boas ideias” que nunca se converteram em “más ideias” porque nunca chegaram a acontecer.
A cada dia que passa, vejo aquele pequeno dígito no canto do ecrã a aumentar e assusto-me.
E não serve de nada aquilo reiniciar uma vez atingido o 28, 29, 30 ou 31… porque o número ao lado também aumenta!!!! … e o outro ao lado!…
Prevejo momentos complicados nos altos dígitos…
Estarei ainda a tempo de suavizar o embate?
Pausa para almoço… e alguma escrita…
Ontém vi nas notícias matutinas que uns investigadores russos tinham, de alguma forma, “ressuscitado” plantas a partir de rebentos com mais de 30 k anos. Embora isto faça lembrar, como até foi sugerido na reportagem que vi, algo «Jurassic Parquiano», o que verdadeiramente me chamou a atenção quando vi as imagens foi o facto de os ditos “investigadores” parecerem todos saídos de um lar de idosos… Na altura torci um pouco o nariz. Mas como ainda não estamos em Abril e não estava a receber a notícia por mail, pensei: “bom, afinal isto foi publicado nos “proceedings” da mui graciosa «National Science Academy of the United States of America», certo? Há de ter o seu crédito…”
Pobres cientistas, estou eu para aqui a descredibilizá-los, por ventura pessoas honestas e trabalhadoras que falam uma língua estrangeira, e nem sequer ainda li o artigo que publicaram. A propósito, artigo que está aqui:
Regeneration of whole fertile plants from 30,000-y-old fruit tissue buried in Siberian permafrost
Teimoso como sou, insisto: aquilo era um lar de idosos. Além disso, não tem mal nenhum… eram idosos… e cientistas… porque não?
Para quem queria escrever no primeiro dia do novo ano (ou seria no último do anterior?), 60 dias não me parece um atraso muito mau… acho que depende daquilo que se fizer com os retantes 300…
Hoje apeteceu-me vir aqui. As núvens encobriram o céu, finalmente caíram uns pingos de água, e um véu de impurezas e vapor de água impede-me de ver a minha querida Lua… Por isso refugiei-me aqui. À falta de melhor, esta é A alternativa, com a vantagem de, daqui, se ver também a outra face…
Não sei exactamente onde é que isto vai parar, mas neste momento, estou em modo de “despejo” e procuro pensar o mínimo possível e manter o fluxo de informação constante (mas porque é que eu escrevi isto?…).
Para que tudo faça, eventualmente, algum sentido, vou começar por um processo de contextualização. Nos últimos tempos, a minha vida – e uso este termo num sentido bastante lato – sofreu algumas mudanças algo… contrastantes, vá – “drásticas” parece-me sempre demasiado dramático – e é necessário divagar um pouco sobre isso para que tudo encaixe com um “puzzle”. A minha vida mudou de ritmo – deixei de trabalhar, comecei a passar mais tempo em casa. Casa que também já não é a mesma – a minha vida mudou de sítio. A razão de ser dos dois primeiros itens que referi devem-se ao facto de eu, supostamente, estar a desenvolver um trabalho que culminará num texto de carácter científico e que procurará, de forma algo discutível, constituir um documento que providencie um contributo de índole prática para auxiliar uma tarefa de relativa importância no seio da materialização de um projecto de grande importância e vasta envergadura a ter lugar num determinado país do hemisfério Norte, situado num continente que, segundo se diz, é a origem de muitas coisas… (how’s this for discretion? – Yeah!I). Posso ainda acrescentar que este processo foi precedido de um período de preparação composto por – posso dizê-lo, porque não? – aulas e realização de trabalhos. Esta é a principal razão que me obriga a ter que tomar algumas decisões em relação àquilo a que eu dedico o meu tempo quando não estou a desenvolver a própria tarefa.
Por outro lado, o terceiro item concorreu cronologicamente com os dois primeiros, e em conjunto, todos estes sobrepuseram-se a um quarto que eu não referi e que não tenciono abordar. Basta que diga que o tom mais monocromático, divagante (esse talvez não tenha mudado) e menos esclarecido, patente nalguns dos meus posts anteriores estará, quiçá, relacionado com ele. No mesmo tom “à la enguia”, dir-se-ia que “a minha vida mudou.” Não sei até que ponto é que não estou a ser indesejavelmente óbvio, mas isso é algo que irei aferir quando reler este texto, logo a seguir a carregar no botão “Publish”…
Retomando as letras, e tendo removido este pequeno ponto prévio, este obstáculo do caminho, penso que poderei dar início à “ordem de despejo”…
(…) [tive que fazer uma pequena pausa porque reparei que Lua começou a espreitar por cima do manto de núvens e não resisti a ir fazer-lhe uma festinha…]
Sempre fui uma pessoa que gosta de passar tempo com as outras pessoas, que aprecia “fazer coisas” com os outros, a quem apraz ocupar várias horas em conversas por vezes mais mortas que o Latim… ou simplesmente ir passear e conhecer novos espaços e pessoas… e assim fiz… Simultaneamente também sempre fui alguém que doseia tudo isso com pequenas injecções de introspecção e isolamento. Embora este comportamento tenha dado fruto a ocasionais mal-entendidos e alguma incompatibilidade com um ou outro ser-vivo deste planeta, atrevo-me a dizer que, sob este prisma, o “mercado estava em equilíbrio”.
Nos últimos tempos isso mudou. Por ventura, a palavra mais adequada talvez seja “inverteu-se”. Por um período bastante longo – afinal já lá vai mais de um ano – , o meu modus operandi passou a ser construído com extensos períodos de isolamento polvilhados, salpicados, com eventos – devidamente espaçados – de intensa ruptura àquilo que passou a ser, então, a base. Quando digo “intensa” não quero com isto significar propriamente “loucura”, em particular no que se refere às minhas incursóes “à rua”… o intuito é salientar o quão desequilibrado ou complicado isso está a ser para mim.
Muito tempo em casa, por muito que se tenha que fazer – e posso dizer que, com uma ou outra falha pontual, fiz o que tinha a fazer – implica sempre mais tempo para pensar… Efectivamente, isto só se tornou assim quando deixei definitivamente de trabalhar e me dediquei inteiramente a outras actividades. Será que me escapou referir que acumulei tudo isto com trabalho em part-time? Não quero que o que mencionei se assemelhe a uma vanglorização ou um lamento do tipo “vejam como eu sofro”, não. Provavelmente, do ponto de vista prático, as tarefas que acumulei nessa altura não foram nada de extraordinário. Nada que uma qualquer pessoa que saiba que tem diversos objectivos por cumprir e metas a atingir não faça, desde que tome as devidas providências. Não, aquilo que pretendo transmitir é que tudo isso, para mim, talvez tenha sido um pouco… excessivo. Mas, como me inclinava para dizer, “… mas não impossível”.
Resumindo, o período mais complicado no tempo, em termos operacionais e de gestão, coincidiu com a altura de maior fluxo de trabalho. Isso manteve-me concentrado no que tinha a fazer. No fundo, mal sabia eu que apenas estava a protelar o que estava para vir… (suspense – digo-vos já que não foi o mordomo).
E assim, entrei noutra fase, naquela que estou, em princípio, a acabar. Mas o início foi um pouco difícil porque, subitamente, passei a ter mais tempo para me dedicar – como eu tinha desejado à partida, sem part-times nojentos – a esta actividade. Como adiantei, longos períodos em casa, para estudar, descansar, com tempo para mim, e até para os outros, tornam praticamente inevitável que se dedique também algum tempo a cogitar sobre aqueles assuntos que haviam ficado suspensos.
Para mim esse foi o período mais amargo. Chorei, desesperei, gritei, passei noites em claro. Alturas houve que passava horas, praticamente imóvel, apenas a olhar para a vida. Durante uns dias extremamente pouco elucidados desses meses, inverti totalmente o ciclo de luz. Deitava-me às 10-11 da manhã e acordava às oito da noite. Noutras fases ria-me, cantava, lia, absorvia um pouco de televisão. Estes momentos separavam sessões relativamente longas em que me dedicava – felizmente – aquilo que tinha para fazer. Mas mesmo nesses momentos – mesmo procurando estar devidamente concentrado – é muito complicado permanecer totalmente imune aos nossos próprios demónios… e isso trouxe algumas consequências. Neste registo, o tempo passou de forma loucamente rápida. Nesse estádio, os dias eram como um fluído que se escapava e escorria pelas minhas mãos… Sem que me apercebesse muito bem como, o semestre chegou ao fim. Não foi um desastre – porque eu só estou a salientar as partes que foram temperadas por comportamentos que eu classificaria como “à margem da normalidade”, dentro daquilo que é a minha normalidade, claro – mas, em alguns aspectos, acabou por ser ainda pior que o primeiro…
Chegando o Verão, penso que animei um pouco. Também ajudou a descompressão de “estar de férias” (como se pode estar de férias quando não há férias de que se feriar?). Aí alternei muito descanso com novos episódios de comportamento absurdo. E um pouco como anteriormente, houve alturas em que tanto sentia pura tranquilidade e regozijava-me com o simples prazer de receber sol e calor na pele, como noutras ocasiões um sentimento de angústia e desespero me laceravam o coração e fustigavam a mente.
E ainda não acabou. Por vezes, há alturas que parece que o nosso mundo pára. Tudo à nossa volta prossegue no seu ritmo e nós estacamos, inertes, alheios, apenas envoltos numa leve neblina de indiferença, uma bolha Nihil…
Uma vez dei por mim a chegar a uma sexta-feira, após vários dias reservadamente dedicados ao trabalho, com a sensação de que precisava de ir ter com amigos, ir para a rua desanuviar, depois de ter constatado – e divertidamente estar a reflectir sobre esse assunto - que durante mais de dois dias, não ouvi nenhuma voz humana, nem sequer a minha, a não ser aquela que ouvimos aqui de dentro para dentro – a Voz do Pensamento. Não me recordava de estar activa e absolutamente calado durante tanto tempo. Antes de decidir definitivamente que o que me faltava eram pessoas, lembro-me que conclui que nada podia afirmar pois já não tinha a certeza se nesse período não terei vociferado algo em vez de o pensar (sim, porque, tal como algumas pessoas, também tenho o hábito de falar sozinho de forma quase involuntária). Por fim, questionei-me se chegado a um certo ponto, e nas condições certas, seria possível uma pessoa não conseguir distinguir a sua Voz do Pensamento da sua própria voz? (eu nunca disse que a sanidade era o meu forte…)
Noutros posts posso ter referido que estava perdido e, de facto, era assim que me sentia, um pouco à deriva, sem objectivo, como que a flutuar no meu mundo de medos, de fúrias, de incertezas, desprovido de sentido. Não acho que me tenha encontrado ainda, perdi os contornos daquilo que poderia chamar o meu futuro mas cada vez que desconstruo um pouco do passado é como se estivesse a redefinir o meu presente e um pouco do que lhe está à frente.
Ao olhar para trás e ver tudo aquilo que já referi, apercebo-me que outrora, no início, julguei que tudo não passaria de “mais um daqueles momentos mais complicados”, com que às vezes somos premiados ao longo da vida. Agora a sensação que tenho é que houve aspectos que mudaram, outros que estão a mudar, e de uma forma que não julguei possível anteriormente. E quando comecei a suspeitar desse facto, receei, asfixiava-me essa perspectiva. Mas mais do que constatar de forma quase analítica, eu sinto que as coisas são diferentes. Eu quero ir atrás dessa mudança. E já não tenho medo. Somente me assusta ligeiramente a indefinição que ainda subsiste…
A única coisa que me apraz dizer, como que para concluir este capítulo, é que não sei exactamente como é que esta história acaba, porque ela está ser escrita “de dentro para fora” mas disto eu julgo que posso ter a certeza: o tempo, aquele que eu tão imberbemente perdi, deixei escorrer, como se de uma fonte inesgotável jorrasse, é o mesmo que arduamente nos cura, que nos salva, que lentamente nos faz ver loucura onde antes abundava desprezo, ar onde previamente se estendia o vácuo, fogo que superou o gelo, tormenta agora apaziguada pela esperança.
Da mesmo forma como comecei, termino: pois sim, os primeiro sessenta dias do ano trespassaram-me como um meterito cruza a atmosfera em direcção à Terra, mas a verdade é que sinto algum conforto em olhar para atrás, perguntar “só sessenta?”, voltar as costas a tudo isso e caminhar em direcção aos restantes trezentos com optimismo e uma nova esperança…