Wednesday, April 18, 2012

A miopia dos trinta…

Há algo de irónico e até talvez um pouco sarcástico na forma como o puzzle da vida se constrói.

Houve alturas na vida em que eu conseguia ver claramente uma vastidão de espaço (e de tempo) para frente no meu percurso. Apercebia-me da planície longa e serena que me esperava. E lá ao fundo, como que escondido por espessas cortinas de fumo, ficava o Incerto. Olhava em frente e vislumbrava, com contraste nítido, ora planície, ora a barreira do desconhecido. Não a temia, nessa altura. Pois a visão da planície deixava-me tranquilo, seguro e confiante.

E eis que o dia chegou, sem que me apercebesse objectivamente, sem que me desse ao trabalho de me preocupar, em que me deparei frente a frente com aquela cortina desconhecida, com aquele véu de incerteza. E nesse momento ficou claro para mim: não há como escapar. Tenho que continuar.

Transpus essa fina capa que me cegava o futuro. E do outro lado, os meus pés perderam a sustentação, senti-me em queda-livre, pois apenas encontrei o vazio… e de repente, tudo se transformou…

Agora não vejo planície, a cortina opaca também já não a encontro. O mundo parece diferente, o ar parece menos caloroso, menos aromático, os olhos teimam em não focar. Resta agora uma ténue neblina, muito sublime, tão leve e fina que se torna quase imperceptível. E depois cores. Muitas cores. Lá ao fundo, já nada vejo. Sinto apenas um inexplicável impulso que me guia em direcção aos sons e luzes distantes que os meus dedos não tocam, os ouvidos não escutam e o coração não sente.

Peça a peça, então, eu direi. Várias vezes. Quantas vezes? Construir, desconstruir, reconstruir, destruir… rumo à tela final…  

1 comment:

Vento no Cabelo said...

cada vez mais acho que só interessa o presente.
a planície tranquila muitas vezes é uma miragem :-)