Sempre me senti mais à vontade no mundo do abstraccionismo do que no universo exigente do encadeamento rápido e lógico. Talvez por aí me sinta mais à vontade a jogar xadrez e seja absurdamente imbecil a jogar damas ou 4-em-linha…
Talvez isto pareça incoerente ou ilógico mas… não quero saber!
Claro que não me impede de estabelecer raciocínios intrincadamente emaranhados e rebuscados… nunca disse que a minha cabeça era simples…
As pessoas que conhecemos ao longo da vida são-nos expostas em diferentes medidas. Algumas conhecemos superficialmente, raspam-nos ao de leve, nunca nos tocando na alma. Outras há que, sem que saibamos explicar, parecem ter o formato certo para surja uma troca simultaneamente cúmplice que se alimenta a si própria e que, só por si, justifica a aproximação.
Hoje aconteceu algo que me deixou pensativo.
Convivo com esta pessoa há vários anos. Somos amigos. Contudo, os nossos feitios são bem diferentes e, talvez de forma unilateral, existe algo no seu carácter que me transtorna, que me irrita solenemente, que me deixa revoltado. E verdade seja dita, com o tempo e a convivência, aprendi a dar menos importância aos aspectos que chocavam comigo e a valorizar aqueles que acabaram por dar lugar à grande amizade que existe entre nós. Foi um processo difícil, moroso, mas relativamente subtil e, presumo, nada unilateral. A sensação que tenho é que conheço o carácter desta pessoa relativamente bem e consigo relacionar comportamentos e reacções com aspectos de personalidade e eventos passados. Mas hoje foi-me dado a conhecer um facto, um aspecto da vida desta pessoa que é, para mim, a pièce de resistance… e de repente, tudo ficou claro para mim. Pequenas reacções, certos comportamentos, um olhar reprovador, um esgar de revolta, um sorriso amarelo e sarcástico, escondendo um rancor perdido e inexplicado… tudo isto, agora tornado (mais) claro para mim… e num segundo, senti-me como se compreendesse parte da sua essência, como se sentisse o que é ser essa pessoa…
A força motriz que nos faz correr mais depressa, saltar mais alto, ir mais longe, que nos faz saber ultrapassar as barreiras, que nos permite perseguir os nossos objectivos, que nos possibilita persistir e finalizar arduamente as tarefas a que nos propomos, tudo isso, é algo que, dependendo do contexto, nos pode corroer, lentamente consumir a nossa paz…
Amargurar a simplicidade de certas coisas da vida, tirar-nos o focus daquilo que nos faz verdadeiramente sentir vivos… abater a profundidade dos nossos sorrisos, a nossa raison d’être…
Vi um pouco de todas estas coisas e então compreendi… senti… respirei fundo e…
… e senti-me como um intruso… senti-me na posse de um poder imenso, de um conhecimento profundo… quem sou eu para saber aquelas coisas, quem sou eu para poder julgá-las, quem sou eu para poder guardá-las e, caso entendesse, fazer delas o que bem entendesse?
…. e senti, na minha pele, a vulnerabilidade daquele ser, daquela vida, daquela centelha, única, tremendamente valiosa e singela… e só quis protegê-la, só quis acariciá-la e colocá-la numa redoma. Senti um calor imenso a subir do meu estômago até ao coração e no fim, no lugar de toda aquela fragilidade, ergueu-se uma montanha de respeito, de plenitude.
E da mesma forma intensa como sentia o choque entre nós, agora sei, tenho a certeza, que preciso e quero manter esta pessoa presente na minha vida.
E saber isso faz-me sorrir, porque não preciso de pensar na razão porque o quero ou preciso de o fazer.
Sinto que é assim, e assim deve ser… e isso basta-me…
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