Saturday, March 31, 2012

--------- Tónica do Desassossego ---------

E assim se chega ao fim de mais um ciclo. É o fim do mês, é o fim do primeiro trimestre e, concidentemente, o final de outros ciclos menos evidentes. Não é o fim do ciclo maior – esse, ainda vai arrastar-se por mais umas semanas, uns quantos meses. Mas os pequenos ciclos começam e terminam dentro desse, como os dias num mês, os segundos numa hora. Pequenos ciclos cujo intermitente cintilar popula e marca, quase que compassadamente, a lenta marcha do tempo. Alguns desses ciclos são efémeros, extinguindo-se uma vez atingido o ponto de partida. Outros aparentam ser eternos, reiterando o seu percurso, com o mesmo ímpeto e determinação com que outrora o haviam iniciado.

Vejo estes ciclos não como formas geométricas per se, mas como o rasto luminoso de milhares de pequenos pontos de luz, cada um definindo o seu ciclo. E no seu movimento ondulatório, imprimem movimento ao conjunto.

O que parece um progredir constante, sereno, lento e compassado é, na realidade, o produto de milhares de pequenos destes pontos circulando ora a favor, ora contra o movimento perpétuo do tempo.

Quando muitos ciclos se alinham, tudo parece andar mais depressa, mais intenso, mais efusivo, mais vivo. Os pontos brilham com intensidade redobrada. As cores são mais marcantes que nunca…

E eu juraria que, nessas ocasiões, se consegue vislumbrar também um pouco do trajecto do Grande ciclo, à frente do tempo, para lá do Agora.

Friday, March 30, 2012

Eu danço…

Silêncio… apenas o toque das gotas de chuva lá fora contra o parapeito, contra o vidro, contra os meus ouvidos…

Mas é só isso. Já não ouço as melodias, já não perspiro as angústias em tons de cinzento que assolavam a minha paz, já não me atormentam aquelas luzes, como olhos demoníacos, que ladeavam o meu caminho…

Agora ouço um silêncio tranquilizante, ocasionalmente interrompido por umas suaves notas musicais que os meus dedos imprimem no tempo…

Há batalha, há confronto? Sim, ainda há. Mas tudo é travado aqui dentro. O coração bate, o sangue flui, ora compassadamente, ora descontroladamente frenético. Mas agora consigo ouvir… e acompanho o ritmo, canto em uníssono, danço o Jónio, o Frígio, o Dório ou o Mixolídio…

E agora estou inebriado pelo cromatismo do sopro da vida.

Monday, March 19, 2012

… mas piso-te os pés.

Eu tentei. Julguei que a viagem seria directa e sem percalços, sem prestar atenção a todas aquelas pequenas luzes que torneiam o caminho. Simplesmente ignorá-las e seguir em frente…

Mas não é assim que acontece. Apesar de os meus passos encontrarem um trilho cujo destino consigo vislumbrar do ponto onde estou, o percurso, esse, é marcado inevitavelmente por pequenas contrariedades… A força do destino impele-me, mas as luzes não são de ignorar. Como pequenos olhos nas profundezas da floresta, fitam-me, recolhem a minha atenção. Mas não me impedem de avançar. Cabe a mim decidir qual o impulso a imprimir ao próximo passo para, um após o outro, conseguir atingir a meta, não obstante o caminho.

Esses olhos agora seguem comigo, enquanto me movo. Não me impedem. Não me guiam. Mas cantam-me uma melodia que me inebria, que me faz sonhar. E que me acorda, a meio da noite.

Eu penso em duas palavras, duas apenas. Que têm o poder de me fazer parar. Que ensombreiam qualquer caminho. Mas que me trazem também inspiração e calor.

Duas palavras que respiram uma contra-melodia que silencia as luzes…

Moja bieda.

Eu canto…

Sou um junco. Um pequeno junco.

Navego os sete mares em busca do meu oceano e, quem sabe, um bom porto.

E nestes dias cheguei a zonas de águas desconhecidas ou, pelo menos, há muito esquecidas. Após uma viagem cansativa e algo dolorosa, o espelho de água liso que o casco interrompe transmite uma sensação de calma, de paz, de serenidade. Ouve-se um silêncio magnífico, apenas o som da água abraçando-me à medida que a percorro…

Mas, ao aproximar-me de terra, apercebo-me de que existe uma pequena vibração, um ligeiro tumulto, um quase imperceptível burbulhar na água. Como se houvesse algo ali expectante, adormecido e que pode ser despoletado a qualquer momento… E este fervilhar intensifica-se com o encurtar da distância.

Embora me custe dolorosamente, concluo rapidamente o significado de toda esta agitação: devo procurar outras águas, apesar de estas permanecerem calmas, apesar de serem repletas de vida. Não posso desembarcar aqui, meu caminho segue, o meu objectivo mantém-se. Mas poderei voltar sempre que quiser, e apreciar o fino e sedoso lençol de água, no qual se espelha o céu e as estrelas e, através dele, sentir as delicadezas da vida, contemplar as paisagens do sonho e fundir-me com as suas formas.

Mas terei sempre de voltar, ou de novo seguir e buscar, pois apenas fará sentido permanecer naquele que é verdadeiramente o meu Mare…

Sunday, March 18, 2012

… e massacro-te os ouvidos.

Nunca tive muito jeito para desenhar. Nos breves momentos em que me dispus a corajosamente tentar transpor a minha percepção da realidade para o papel, fiquei sempre com aquela noção de que havia algo que faltava. Um traço para aqui, um leve toque do lápis para ali, um pequeno esfumado aqui, um contorno inexistente mas que a mente vê claramente…

E sempre senti que onde as limitações físicas podiam ser ultrapassadas – aprendendo novas técnicas, apurando a forma de utilizar os instrumentos – , havia ainda aquela parte dentro de mim que quer exprimir-se mas que não consegue ser canalizada para o mundo material.

E falo especificamente de desenho porque, embora a pintura, em toda a sua abrangência, seja uma arte que consegue deixar-me no meio do deslumbramento e despertar algumas emoções, nunca foi capaz de igualar a plétora de sentimentos que o desenho a lápis move no meu interior.

Existe uma magia poética, um calor imanente que eu não consigo sequer descrever. Provavelmente poderei estar errado, mas para mim, há algo fascinante, diria construtiva, na forma como o traço, aparentemente simples e puro, consegue permear tal dimensão a toda a composição, ao desenho final. Harmonia, profundidade, sentimento, calor.

Talvez se pudesse dizer mais sobre isto, e até muito mais sobre a pintura e outras formas de desenhar, mas eu não tenho dúvidas:

O lápis é o meu eleito.

Saturday, March 17, 2012

Eu escrevo…

Uma ideia, um sentimento. No corpo, na mente. Na alma, no coração.

Umas vezes, o que um suspende, o outro sustenta. Outras vezes, o que um nutre, o outro faz retrair.

E os dois agentes que compõem este cenário são como peças móveis neste puzzle.

É como fazer castelos de areia na praia. A mesma água e areia que definem a sua existência, são também a mesma água e areia que os reclamam de novo. E nesse ciclo, a forma nasce e desvanece como uma ideia, como um sentimento.

Mas não a sua existência.

Wednesday, March 14, 2012

… e perco-te nas letras.

Os olhos são exímios em focar um único ponto no espaço.

Captam luz como uma grande angular, e conseguimos “ver” o mundo que nos rodeia. Objectivamente, apenas um pequeno ponto capta verdadeiramente o foco do nosso processo nervoso, e é convertido em impulsos eléctricos que constituem o expoente máximo do que a nossa vista consegue “sentir”. E os olhos fazem-no constantemente, e com toda a facilidade, a não ser que os obriguemos a desviarem-se do seu instinto natural ou que sejamos portadores de uma condição qualquer que fragilize a nossa visão.

Já a mente, essa, gosta naturalmente de se espraiar e de não focar nada em particular, sendo necessário um esforço mínimo para concentrar os raios mentais sobre um alvo específico. Dispersa é a sua configuração preferencial. Atenta, alerta. Tudo captando, nada focando. A não ser que a obriguemos a isso.

No meu caso, o esforço não é mínimo. Ou não está a ser. Mas não me dou por vencido… vou fechar os meus olhos e converter a mente. E procurar centrar-me num único ponto. Em frente…

…em frente…

Tuesday, March 13, 2012

Eu calo a voz que me ata…

…Vénus e Júpiter alinham-se no espaço, para nosso deleite, ou daqueles que se deixam levar pela doce e poética fragrância dos astros…

Será que este evento – esporádico à nossa escala, harmonioso e determinístico à escala do universo –, nos diz alguma coisa? Terá este ponto no domínio espaço-temporal um significado especial, ou será fruto da nossa natureza, como pequenos maestros de luz, a querer ouvir a melodia cósmica?

É inevitável sentir-me siderado pela vastidão do espaço e pelos incontáveis segredos que esconde…

…é reconfortante pensar que nos locais mais recônditos desse cosmos poderá haver algo inimaginável para mim e para os meus pares, e que, no entanto, a substância de que essa imensidão incomensurável é feita, não difere em nada daquilo que me faz sorrir de manhã, ou daquilo que me tira o sono à noite…

hum… espaço… leva-me contigo.

… e oiço o teu silêncio.

Percorro os dias com uma visão um pouco turva, quiçá pelo facto de me faltar esse quanto de lucidez, mas, essencialmente, por as transições da noite para o dia se assemelharem agora a uma manta de retalhos… vários mares de paz, interrompidos, de 2 em 2 horas, por despertares premiados com a visão lúgubre do tecto do meu quarto… e de novo paz… e novamente, gesso e tinta branca…

Mas a meta está estabelecida, agora é claro para mim.

E, no meio de toda esta turbidez, eis que se imprime com impressionante nitidez, o caminho a percorrer. E nele me lanço, como a sede à fonte…

…obstinado, devoto, determinado, iluminado, silencioso, incansável…

Monday, March 12, 2012

Eu toco-te…

Aaaaahhhhh! Mente irrequieta malvada!!!!!

Deixai-me! Porque insistis em tomar conta de mim, porque sois tão invasora?

Deixai-me ir atrás do fogo e sentir a sua queimadura, explorar o gelo e sentir o sangue a parar, ver a abelha, tocar-lhe, e sentir a sua ferroada. Virar-me contra o vento, levantar voo, e tombar no chão como uma pedra…

Porque traís, aquilo que é a vossa essência, de onde emanais, a fonte do vosso ser? Porque receais a tempestade?

Sois minha para sempre, porque me receais perder?

… e rasgo-te a pele.

Tenho a mente irrequieta. Preciso de concentrar-me, mas o foco dispersa-se pelos inúmeros pensamentos que me bombardeam a cabeça.

“Por hoje, já chega.” diz-me a mente irrequieta.

E por isso, decido que sim, já chega. Vou deitar-me e repousar, tentando não deixar que todas essas ideias me tirem o sono. Ou que o transformem numa má experiência…

Mas não sem antes vir aqui e livrar-me de alguns desses diabos, para que descanse não só o corpo, mas também a mente.

Não consigo. Os pensamentos não têm ainda uma forma bem definida, são como uma espécie de neblina, um fumo que me confunde a visão interior e, dessa forma, não posso extraí-los como tencionava.

Ainda não. Ainda não estou pronto.

Atormenta-me saber que terei de conviver com eles mais um pouco, receando que estes me visitem durante a curta pausa que separa o hoje do amanhã.

“Coragem” diz-me a mente irrequieta, “fecha os olhos e deixa que esses pensamentos permeem o teu espírito… só assim poderás dar-lhes forma e encontrar o Mar que procuras…”

Assim farei.

Sunday, March 11, 2012

Eu beijo-te…

O presente mais não é do que uma perturbação no espaço-tempo, atrás da qual nós seguimos, como espectros. Navegamos ligeiramente atrás da crista desta onda perturbadora, e situamo-nos algures ali entre a Crista da Clarividência e o Mar do Esquecimento ou do Passado… Esta posição faz com que a nossa vida seja vivida na sombra do futuro, apenas o suficiente para não ficarmos perdidos no passado.

O presente é como um raio que percorre o eixo do tempo, deformando tudo na sua frente – o espaço e até mesmo a própria textura do tempo –, implacável, invencível, inabalável.

E este raio avança, transformando futuro em passado, em direcção ao horizonte.

Saturday, March 10, 2012

… e quebra-se o coração.

Quero prolongar este momento ad eternum, quero reviver este instante em cada milisegundo do tempo que começa agora. Mil raios de luz, penetrando em cada poro da minha pele, multiplicando-se em todas as direcções pelo meu sangue e, por ele, chegando a cada cantinho, mesmo os mais remotos, do meu ser.

Propagar este calor, esta energia que radia e, através do meu corpo, perpectuar a sua onda de emoção…

Sentir que cada momento é único e que, no seu conjunto, nenhum o é, numa singularidade de injustiça cega, que transcende qualquer dimensão – seja espaço, seja tempo – e, nesse ponto de puro pecado e imaculada pureza, encontrar o seu destino…

Wednesday, March 7, 2012

Que poesia há nisso? --------------

Já ouvi, várias vezes – e de origens diversas, dizer que não se deve tomar decisões à noite. Que tudo aquilo que nos parece boa ideia dizer, mudar ou fazer à noite, no dia seguinte passam a ser más coisas de se dizer, mudar ou fazer.

Não posso dizer que discorde disso, até porque já tive a oportunidade de conseguir deixar todas essas coisas para o dia seguinte e, de facto, parece que tudo é diferente.

Mas as ideias são sempre as mesmas, simplesmente a nossa percepção delas é que muda. Já me explicaram que à noite, o nosso estado de espírito é mais depressivo e tendencialmente vemos as coisas com menos clareza.

Na minha experiência, a “depressão” nocturna origina coragem, inconsequência e uma espécie de amplificação dos sentimentos – associado a alguma estupidez. No dia seguinte, tudo se converte numa aparente lucidez, ponderação e aquela sensação de que nada do que pensámos na noite anterior fazia sentido.

Continuo a concordar e, como princípio, parece-me convincente.

Mas continuo a achar que a arrepender-me de alguma coisa, há de ser sempre de não ter levado as “boas ideias” para frente.

“Boas ideias” que nunca se converteram em “más ideias” porque nunca chegaram a acontecer.

Tuesday, March 6, 2012

Crash-Test Dummy

A cada dia que passa, vejo aquele pequeno dígito no canto do ecrã a aumentar e assusto-me.

E não serve de nada aquilo reiniciar uma vez atingido o 28, 29, 30 ou 31… porque o número ao lado também aumenta!!!! … e o outro ao lado!…

Prevejo momentos complicados nos altos dígitos…

Estarei ainda a tempo de suavizar o embate?

Friday, March 2, 2012

Deixei a placa no permafrost

Pausa para almoço… e alguma escrita…

Ontém vi nas notícias matutinas que uns investigadores russos tinham, de alguma forma, “ressuscitado” plantas a partir de rebentos com mais de 30 k anos. Embora isto faça lembrar, como até foi sugerido na reportagem que vi, algo «Jurassic Parquiano», o que verdadeiramente me chamou a atenção quando vi as imagens foi o facto de os ditos “investigadores” parecerem todos saídos de um lar de idosos… Na altura torci um pouco o nariz. Mas como ainda não estamos em Abril e não estava a receber a notícia por mail, pensei: “bom, afinal isto foi publicado nos “proceedings” da mui graciosa «National Science Academy of the United States of America», certo? Há de ter o seu crédito…”

Pobres cientistas, estou eu para aqui a descredibilizá-los, por ventura pessoas honestas e trabalhadoras que falam uma língua estrangeira, e nem sequer ainda li o artigo que publicaram. A propósito, artigo que está aqui:

 Regeneration of whole fertile plants from 30,000-y-old fruit tissue buried in Siberian permafrost

Teimoso como sou, insisto: aquilo era um lar de idosos. Além disso, não tem mal nenhum… eram idosos… e cientistas… porque não?

O Sol nasce às 6:30. Se correres, ainda o apanhas…

Para quem queria escrever no primeiro dia do novo ano (ou seria no último do anterior?), 60 dias não me parece um atraso muito mau… acho que depende daquilo que se fizer com os retantes 300…

Hoje apeteceu-me vir aqui. As núvens encobriram o céu, finalmente caíram uns pingos de água, e um véu de impurezas e vapor de água impede-me de ver a minha querida Lua… Por isso refugiei-me aqui. À falta de melhor, esta é A alternativa, com a vantagem de, daqui, se ver também a outra face…

Não sei exactamente onde é que isto vai parar, mas neste momento, estou em modo de “despejo” e procuro pensar o mínimo possível e manter o fluxo de informação constante (mas porque é que eu escrevi isto?…).

Para que tudo faça, eventualmente, algum sentido, vou começar por um processo de contextualização. Nos últimos tempos, a minha vida – e uso este termo num sentido bastante lato – sofreu algumas mudanças algo… contrastantes, vá – “drásticas” parece-me sempre demasiado dramático – e é necessário divagar um pouco sobre isso para que tudo encaixe com um “puzzle”. A minha vida mudou de ritmo – deixei de trabalhar, comecei a passar mais tempo em casa. Casa que também já não é a mesma – a minha vida mudou de sítio. A razão de ser dos dois primeiros itens que referi devem-se ao facto de eu, supostamente, estar a desenvolver um trabalho que culminará num texto de carácter científico e que procurará, de forma algo discutível, constituir um documento que providencie um contributo de índole prática para auxiliar uma tarefa de relativa importância no seio da materialização de um projecto de grande importância e vasta envergadura a ter lugar num determinado país do hemisfério Norte, situado num continente que, segundo se diz, é a origem de muitas coisas… (how’s this for discretion? – Yeah!I). Posso ainda acrescentar que este processo foi precedido de um período de preparação composto por – posso dizê-lo, porque não? – aulas e realização de trabalhos. Esta é a principal razão que me obriga a ter que tomar algumas decisões em relação àquilo a que eu dedico o meu tempo quando não estou a desenvolver a própria tarefa.

Por outro lado, o terceiro item concorreu cronologicamente com os dois primeiros, e em conjunto, todos estes sobrepuseram-se a um quarto que eu não referi e que não tenciono abordar. Basta que diga que o tom mais monocromático, divagante (esse talvez não tenha mudado) e menos esclarecido, patente nalguns dos meus posts anteriores estará, quiçá, relacionado com ele. No mesmo tom “à la enguia”, dir-se-ia que “a minha vida mudou.” Não sei até que ponto é que não estou a ser indesejavelmente óbvio, mas isso é algo que irei aferir quando reler este texto, logo a seguir a carregar no botão “Publish”…

Retomando as letras, e tendo removido este pequeno ponto prévio, este obstáculo do caminho, penso que poderei dar início à “ordem de despejo”…

(…) [tive que fazer uma pequena pausa porque reparei que Lua começou a espreitar por cima do manto de núvens e não resisti a ir fazer-lhe uma festinha…]

Sempre fui uma pessoa que gosta de passar tempo com as outras pessoas, que aprecia “fazer coisas” com os outros, a quem apraz ocupar várias horas em conversas por vezes mais mortas que o Latim… ou simplesmente ir passear e conhecer novos espaços e pessoas… e assim fiz… Simultaneamente também sempre fui alguém que doseia tudo isso com pequenas injecções de introspecção e isolamento. Embora este comportamento tenha dado fruto a ocasionais mal-entendidos e alguma incompatibilidade com um ou outro ser-vivo deste planeta, atrevo-me a dizer que, sob este prisma, o “mercado estava em equilíbrio”.

Nos últimos tempos isso mudou. Por ventura, a palavra mais adequada talvez seja “inverteu-se”. Por um período bastante longo – afinal já lá vai mais de um ano – , o meu modus operandi passou a ser construído com extensos períodos de isolamento polvilhados, salpicados, com eventos – devidamente espaçados – de intensa ruptura àquilo que passou a ser, então, a base. Quando digo “intensa” não quero com isto significar propriamente “loucura”, em particular no que se refere às minhas incursóes “à rua”… o intuito é salientar o quão desequilibrado ou complicado isso está a ser para mim.

Muito tempo em casa, por muito que se tenha que fazer – e posso dizer que, com uma ou outra falha pontual, fiz o que tinha a fazer – implica sempre mais tempo para pensar… Efectivamente, isto só se tornou assim quando deixei definitivamente de trabalhar e me dediquei inteiramente a outras actividades. Será que me escapou referir que acumulei tudo isto com trabalho em part-time? Não quero que o que mencionei se assemelhe a uma vanglorização ou um lamento do tipo “vejam como eu sofro”, não. Provavelmente, do ponto de vista prático, as tarefas que acumulei nessa altura não foram nada de extraordinário. Nada que uma qualquer pessoa que saiba que tem diversos objectivos por cumprir e metas a atingir não faça, desde que tome as devidas providências. Não, aquilo que pretendo transmitir é que tudo isso, para mim, talvez tenha sido um pouco… excessivo. Mas, como me inclinava para dizer, “… mas não impossível”.

Resumindo, o período mais complicado no tempo, em termos operacionais e de gestão, coincidiu com a altura de maior fluxo de trabalho. Isso manteve-me concentrado no que tinha a fazer. No fundo, mal sabia eu que apenas estava a protelar o que estava para vir… (suspense – digo-vos já que não foi o mordomo).

E assim, entrei noutra fase, naquela que estou, em princípio, a acabar. Mas o início foi um pouco difícil porque, subitamente, passei a ter mais tempo para me dedicar – como eu tinha desejado à partida, sem part-times nojentos – a esta actividade. Como adiantei, longos períodos em casa, para estudar, descansar, com tempo para mim, e até para os outros, tornam praticamente inevitável que se dedique também algum tempo a cogitar sobre aqueles assuntos que haviam ficado suspensos.

Para mim esse foi o período mais amargo. Chorei, desesperei, gritei, passei noites em claro. Alturas houve que passava horas, praticamente imóvel, apenas a olhar para a vida. Durante uns dias extremamente pouco elucidados desses meses, inverti totalmente o ciclo de luz. Deitava-me às 10-11 da manhã e acordava às oito da noite. Noutras fases ria-me, cantava, lia, absorvia um pouco de televisão. Estes momentos separavam sessões relativamente longas em que me dedicava – felizmente – aquilo que tinha para fazer. Mas mesmo nesses momentos – mesmo procurando estar devidamente concentrado – é muito complicado permanecer totalmente imune aos nossos próprios demónios… e isso trouxe algumas consequências. Neste registo, o tempo passou de forma loucamente rápida. Nesse estádio, os dias eram como um fluído que se escapava e escorria pelas minhas mãos… Sem que me apercebesse muito bem como, o semestre chegou ao fim. Não foi um desastre – porque eu só estou a salientar as partes que foram temperadas por comportamentos que eu classificaria como “à margem da normalidade”, dentro daquilo que é a minha normalidade, claro – mas, em alguns aspectos, acabou por ser ainda pior que o primeiro…

Chegando o Verão, penso que animei um pouco. Também ajudou a descompressão de “estar de férias” (como se pode estar de férias quando não há férias de que se feriar?). Aí alternei muito descanso com novos episódios de comportamento absurdo. E um pouco como anteriormente, houve alturas em que tanto sentia pura tranquilidade e regozijava-me com o simples prazer de receber sol e calor na  pele, como noutras ocasiões um sentimento de angústia e desespero me laceravam o coração e fustigavam a mente.

E ainda não acabou. Por vezes, há alturas que parece que o nosso mundo pára. Tudo à nossa volta prossegue no seu ritmo e nós estacamos, inertes, alheios, apenas envoltos numa leve neblina de indiferença, uma bolha Nihil

Uma vez dei por mim a chegar a uma sexta-feira, após vários dias reservadamente dedicados ao trabalho, com a sensação de que precisava de ir ter com amigos, ir para a rua desanuviar, depois de ter constatado – e divertidamente estar a reflectir sobre esse assunto -  que durante mais de dois dias, não ouvi nenhuma voz humana, nem sequer a minha, a não ser aquela que ouvimos aqui de dentro para dentro – a Voz do Pensamento. Não me recordava de estar activa e absolutamente calado durante tanto tempo. Antes de decidir definitivamente que o que me faltava eram pessoas, lembro-me que conclui que nada podia afirmar pois já não tinha a certeza se nesse período não terei vociferado algo em vez de o pensar (sim, porque, tal como algumas pessoas, também tenho o hábito de falar sozinho de forma quase involuntária). Por fim, questionei-me se chegado a um certo ponto, e nas condições certas, seria possível uma pessoa não conseguir distinguir a sua Voz do Pensamento da sua própria voz? (eu nunca disse que a sanidade era o meu forte…)

Noutros posts posso ter referido que estava perdido e, de facto, era assim que me sentia, um pouco à deriva, sem objectivo, como que a flutuar no meu mundo de medos, de fúrias, de incertezas, desprovido de sentido. Não acho que me tenha encontrado ainda, perdi os contornos daquilo que poderia chamar o meu futuro mas cada vez que desconstruo um pouco do passado é como se estivesse a redefinir o meu presente e um pouco do que lhe está à frente.

Ao olhar para trás e ver tudo aquilo que já referi, apercebo-me que outrora, no início, julguei que tudo não passaria de “mais um daqueles momentos mais complicados”, com que às vezes somos premiados ao longo da vida. Agora a sensação que tenho é que houve aspectos que mudaram, outros que estão a mudar, e de uma forma que não julguei possível anteriormente. E quando comecei a suspeitar desse facto, receei, asfixiava-me essa perspectiva. Mas mais do que constatar de forma quase analítica, eu sinto que as coisas são diferentes. Eu quero ir atrás dessa mudança. E já não tenho medo. Somente me assusta ligeiramente a indefinição que ainda subsiste…

A única coisa que me apraz dizer, como que para concluir este capítulo, é que não sei exactamente como é que esta história acaba, porque ela está ser escrita “de dentro para fora” mas disto eu julgo que posso ter a certeza: o tempo, aquele que eu tão imberbemente perdi, deixei escorrer, como se de uma fonte inesgotável jorrasse, é o mesmo que arduamente nos cura, que nos salva, que lentamente nos faz ver loucura onde antes abundava desprezo, ar onde previamente se estendia o vácuo, fogo que superou o gelo, tormenta agora apaziguada pela esperança.

Da mesmo forma como comecei, termino: pois sim, os primeiro sessenta dias do ano trespassaram-me como um meterito cruza a atmosfera em direcção à Terra, mas a verdade é que sinto algum conforto em olhar para atrás, perguntar “só sessenta?”, voltar as costas a tudo isso e caminhar em direcção aos restantes trezentos com optimismo e uma nova esperança…