Para quem queria escrever no primeiro dia do novo ano (ou seria no último do anterior?), 60 dias não me parece um atraso muito mau… acho que depende daquilo que se fizer com os retantes 300…
Hoje apeteceu-me vir aqui. As núvens encobriram o céu, finalmente caíram uns pingos de água, e um véu de impurezas e vapor de água impede-me de ver a minha querida Lua… Por isso refugiei-me aqui. À falta de melhor, esta é A alternativa, com a vantagem de, daqui, se ver também a outra face…
Não sei exactamente onde é que isto vai parar, mas neste momento, estou em modo de “despejo” e procuro pensar o mínimo possível e manter o fluxo de informação constante (mas porque é que eu escrevi isto?…).
Para que tudo faça, eventualmente, algum sentido, vou começar por um processo de contextualização. Nos últimos tempos, a minha vida – e uso este termo num sentido bastante lato – sofreu algumas mudanças algo… contrastantes, vá – “drásticas” parece-me sempre demasiado dramático – e é necessário divagar um pouco sobre isso para que tudo encaixe com um “puzzle”. A minha vida mudou de ritmo – deixei de trabalhar, comecei a passar mais tempo em casa. Casa que também já não é a mesma – a minha vida mudou de sítio. A razão de ser dos dois primeiros itens que referi devem-se ao facto de eu, supostamente, estar a desenvolver um trabalho que culminará num texto de carácter científico e que procurará, de forma algo discutível, constituir um documento que providencie um contributo de índole prática para auxiliar uma tarefa de relativa importância no seio da materialização de um projecto de grande importância e vasta envergadura a ter lugar num determinado país do hemisfério Norte, situado num continente que, segundo se diz, é a origem de muitas coisas… (how’s this for discretion? – Yeah!I). Posso ainda acrescentar que este processo foi precedido de um período de preparação composto por – posso dizê-lo, porque não? – aulas e realização de trabalhos. Esta é a principal razão que me obriga a ter que tomar algumas decisões em relação àquilo a que eu dedico o meu tempo quando não estou a desenvolver a própria tarefa.
Por outro lado, o terceiro item concorreu cronologicamente com os dois primeiros, e em conjunto, todos estes sobrepuseram-se a um quarto que eu não referi e que não tenciono abordar. Basta que diga que o tom mais monocromático, divagante (esse talvez não tenha mudado) e menos esclarecido, patente nalguns dos meus posts anteriores estará, quiçá, relacionado com ele. No mesmo tom “à la enguia”, dir-se-ia que “a minha vida mudou.” Não sei até que ponto é que não estou a ser indesejavelmente óbvio, mas isso é algo que irei aferir quando reler este texto, logo a seguir a carregar no botão “Publish”…
Retomando as letras, e tendo removido este pequeno ponto prévio, este obstáculo do caminho, penso que poderei dar início à “ordem de despejo”…
(…) [tive que fazer uma pequena pausa porque reparei que Lua começou a espreitar por cima do manto de núvens e não resisti a ir fazer-lhe uma festinha…]
Sempre fui uma pessoa que gosta de passar tempo com as outras pessoas, que aprecia “fazer coisas” com os outros, a quem apraz ocupar várias horas em conversas por vezes mais mortas que o Latim… ou simplesmente ir passear e conhecer novos espaços e pessoas… e assim fiz… Simultaneamente também sempre fui alguém que doseia tudo isso com pequenas injecções de introspecção e isolamento. Embora este comportamento tenha dado fruto a ocasionais mal-entendidos e alguma incompatibilidade com um ou outro ser-vivo deste planeta, atrevo-me a dizer que, sob este prisma, o “mercado estava em equilíbrio”.
Nos últimos tempos isso mudou. Por ventura, a palavra mais adequada talvez seja “inverteu-se”. Por um período bastante longo – afinal já lá vai mais de um ano – , o meu modus operandi passou a ser construído com extensos períodos de isolamento polvilhados, salpicados, com eventos – devidamente espaçados – de intensa ruptura àquilo que passou a ser, então, a base. Quando digo “intensa” não quero com isto significar propriamente “loucura”, em particular no que se refere às minhas incursóes “à rua”… o intuito é salientar o quão desequilibrado ou complicado isso está a ser para mim.
Muito tempo em casa, por muito que se tenha que fazer – e posso dizer que, com uma ou outra falha pontual, fiz o que tinha a fazer – implica sempre mais tempo para pensar… Efectivamente, isto só se tornou assim quando deixei definitivamente de trabalhar e me dediquei inteiramente a outras actividades. Será que me escapou referir que acumulei tudo isto com trabalho em part-time? Não quero que o que mencionei se assemelhe a uma vanglorização ou um lamento do tipo “vejam como eu sofro”, não. Provavelmente, do ponto de vista prático, as tarefas que acumulei nessa altura não foram nada de extraordinário. Nada que uma qualquer pessoa que saiba que tem diversos objectivos por cumprir e metas a atingir não faça, desde que tome as devidas providências. Não, aquilo que pretendo transmitir é que tudo isso, para mim, talvez tenha sido um pouco… excessivo. Mas, como me inclinava para dizer, “… mas não impossível”.
Resumindo, o período mais complicado no tempo, em termos operacionais e de gestão, coincidiu com a altura de maior fluxo de trabalho. Isso manteve-me concentrado no que tinha a fazer. No fundo, mal sabia eu que apenas estava a protelar o que estava para vir… (suspense – digo-vos já que não foi o mordomo).
E assim, entrei noutra fase, naquela que estou, em princípio, a acabar. Mas o início foi um pouco difícil porque, subitamente, passei a ter mais tempo para me dedicar – como eu tinha desejado à partida, sem part-times nojentos – a esta actividade. Como adiantei, longos períodos em casa, para estudar, descansar, com tempo para mim, e até para os outros, tornam praticamente inevitável que se dedique também algum tempo a cogitar sobre aqueles assuntos que haviam ficado suspensos.
Para mim esse foi o período mais amargo. Chorei, desesperei, gritei, passei noites em claro. Alturas houve que passava horas, praticamente imóvel, apenas a olhar para a vida. Durante uns dias extremamente pouco elucidados desses meses, inverti totalmente o ciclo de luz. Deitava-me às 10-11 da manhã e acordava às oito da noite. Noutras fases ria-me, cantava, lia, absorvia um pouco de televisão. Estes momentos separavam sessões relativamente longas em que me dedicava – felizmente – aquilo que tinha para fazer. Mas mesmo nesses momentos – mesmo procurando estar devidamente concentrado – é muito complicado permanecer totalmente imune aos nossos próprios demónios… e isso trouxe algumas consequências. Neste registo, o tempo passou de forma loucamente rápida. Nesse estádio, os dias eram como um fluído que se escapava e escorria pelas minhas mãos… Sem que me apercebesse muito bem como, o semestre chegou ao fim. Não foi um desastre – porque eu só estou a salientar as partes que foram temperadas por comportamentos que eu classificaria como “à margem da normalidade”, dentro daquilo que é a minha normalidade, claro – mas, em alguns aspectos, acabou por ser ainda pior que o primeiro…
Chegando o Verão, penso que animei um pouco. Também ajudou a descompressão de “estar de férias” (como se pode estar de férias quando não há férias de que se feriar?). Aí alternei muito descanso com novos episódios de comportamento absurdo. E um pouco como anteriormente, houve alturas em que tanto sentia pura tranquilidade e regozijava-me com o simples prazer de receber sol e calor na pele, como noutras ocasiões um sentimento de angústia e desespero me laceravam o coração e fustigavam a mente.
E ainda não acabou. Por vezes, há alturas que parece que o nosso mundo pára. Tudo à nossa volta prossegue no seu ritmo e nós estacamos, inertes, alheios, apenas envoltos numa leve neblina de indiferença, uma bolha Nihil…
Uma vez dei por mim a chegar a uma sexta-feira, após vários dias reservadamente dedicados ao trabalho, com a sensação de que precisava de ir ter com amigos, ir para a rua desanuviar, depois de ter constatado – e divertidamente estar a reflectir sobre esse assunto - que durante mais de dois dias, não ouvi nenhuma voz humana, nem sequer a minha, a não ser aquela que ouvimos aqui de dentro para dentro – a Voz do Pensamento. Não me recordava de estar activa e absolutamente calado durante tanto tempo. Antes de decidir definitivamente que o que me faltava eram pessoas, lembro-me que conclui que nada podia afirmar pois já não tinha a certeza se nesse período não terei vociferado algo em vez de o pensar (sim, porque, tal como algumas pessoas, também tenho o hábito de falar sozinho de forma quase involuntária). Por fim, questionei-me se chegado a um certo ponto, e nas condições certas, seria possível uma pessoa não conseguir distinguir a sua Voz do Pensamento da sua própria voz? (eu nunca disse que a sanidade era o meu forte…)
Noutros posts posso ter referido que estava perdido e, de facto, era assim que me sentia, um pouco à deriva, sem objectivo, como que a flutuar no meu mundo de medos, de fúrias, de incertezas, desprovido de sentido. Não acho que me tenha encontrado ainda, perdi os contornos daquilo que poderia chamar o meu futuro mas cada vez que desconstruo um pouco do passado é como se estivesse a redefinir o meu presente e um pouco do que lhe está à frente.
Ao olhar para trás e ver tudo aquilo que já referi, apercebo-me que outrora, no início, julguei que tudo não passaria de “mais um daqueles momentos mais complicados”, com que às vezes somos premiados ao longo da vida. Agora a sensação que tenho é que houve aspectos que mudaram, outros que estão a mudar, e de uma forma que não julguei possível anteriormente. E quando comecei a suspeitar desse facto, receei, asfixiava-me essa perspectiva. Mas mais do que constatar de forma quase analítica, eu sinto que as coisas são diferentes. Eu quero ir atrás dessa mudança. E já não tenho medo. Somente me assusta ligeiramente a indefinição que ainda subsiste…
A única coisa que me apraz dizer, como que para concluir este capítulo, é que não sei exactamente como é que esta história acaba, porque ela está ser escrita “de dentro para fora” mas disto eu julgo que posso ter a certeza: o tempo, aquele que eu tão imberbemente perdi, deixei escorrer, como se de uma fonte inesgotável jorrasse, é o mesmo que arduamente nos cura, que nos salva, que lentamente nos faz ver loucura onde antes abundava desprezo, ar onde previamente se estendia o vácuo, fogo que superou o gelo, tormenta agora apaziguada pela esperança.
Da mesmo forma como comecei, termino: pois sim, os primeiro sessenta dias do ano trespassaram-me como um meterito cruza a atmosfera em direcção à Terra, mas a verdade é que sinto algum conforto em olhar para atrás, perguntar “só sessenta?”, voltar as costas a tudo isso e caminhar em direcção aos restantes trezentos com optimismo e uma nova esperança…