No outro dia fui à minha antiga casa, aquela casa que me viu crescer, a casa que pertence aos meus pais, a casa que ainda guarda o meu cheiro, a casa por onde, pelas suas paredes desnudadas, ainda ecoam os reflexos de anos e anos de experiências…
No antigo escritório, colados por dentro das portas das estantes, encontrei afixados os poemas que remontam aos tempos de estudante da minha mãe e que, desde tenra idade, me serviam de escape para aqueles momentos em que a repreensão dos meus pais era tal que me fazia chegar as lágrimas aos olhos, ou, por tristeza adolescente ou dor legítima, encontrava naquelas palavras a minha jangada de salvação…
Éramos amigos e tornámo-nos estranhos um ao outro.
Está bem assim, não nos esconderemos nem dissimularemos nada um ao outro.
Não temos de corar por coisa nenhuma.
Somos dois navios, cada um tem o seu caminho e o seu destino.
Cruzámo-nos por acaso, celebrámos juntos uma grande festa
e então os nossos dois corajosos navios repousaram
tão tranquilamente no mesmo porto e sob o mesmo sol,
que parecia terem os dois atingido um objectivo que lhes era comum.
Mas a força poderosa do nosso dever expulsou-nos novamente para mares e sóis diversos.
Talvez não nos vejamos mais ou então voltar-nos-emos a ver sem nos reconhecermos.
Os mares e os sóis diferentes ter-nos-ão transformado.
Estava escrito no nosso destino, que nos devíamos tornar estranhos.
Mais uma razão para nos respeitarmos mutuamente.
Mais uma razão para santificar nossa amizade interrompida.
Existe certamente um astro longínquo, invisível e prodigioso que dá uma lei comum
às nossas pequenas evoluções…
Elevemo-nos até esse pensamento!
A nossa vida é demasiado curta,
A nossa vida é demasiado fraca,
E se temos de ser estranhos na terra, acreditemos apesar de tudo,
na nossa amizade estelar.
Friedrich Nietzsche
Trata-se de um poema que sempre me atraiu e que, ainda hoje, me diz muito, embora o sentido que tiro dele e o significado que supostamente possui, sejam algo díspares.
Não posso deixar de referir, com uma ponta de mágoa, que existe uma pessoa a quem posso dedicar este poema. Para a qual estas palavras talvez se mostrem demasiado apropriadas. E é com alguma tristeza que, passados tantos anos, ainda as sinto como adequadas e justas…
Não obstante, quando penso nas pessoas que são importantes na minha vida, esta poesia dá-me força, dá-me convicção, faz-me querer agarrá-las e mantê-las perto de mim…
Porque se é verdade que é inevitável sentir que muitas pessoas entram na nossa vida e dela saem como folhas caducas na Primavera e no Outono, a verdade é que outras há que, seja sob o Sol escaldante do Verão ou fustigadas pela bátega e pelo frio extremo do Inverno, são perenes… estão lá para nós.
E devemos agarrá-las firmemente, porque aí reside o sopro da vida…
…talvez não possamos extrair delas o propósito da nossa existência mas, sem dúvida,
é delas que devemos beber o fôlego que nos dá força para o concretizar!!…
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