Tuesday, November 16, 2010

Tudo bem

Há dias em que uma pessoa não devia sair de casa. Há dias em que uma pessoa não devia sequer sair da cama.

Às vezes, parece que tudo corre mal. Parece que os quatro ventos se conjugam e empurram tudo que pode correr mal para cima de nós. E nós a amochar com aquela trampa toda…

“Está tudo bem?” perguntam-nos. E claro, respondemos sem convicção: “…sim, sim… está tudo bem…”. Para alguns, é claro que talvez não esteja, mas perguntar ou comentar para além disso pode já ser querer saber demais. Para outros, escapa-lhes a hesitação, a inevitável pequena ironia entre as linhas e tudo está, então, “bem”… É claro que está tudo bem! Cabe a poucos saber se de facto está tudo bem ou não. E aqueles que encarreiram por aí, acabam pacientemente a ouvir-nos a divagar, lamuriar ou, simplesmente, desabafar…

A cama é algo do género de um escudo. Lá dentro estamos protegidos do mundo exterior, parece que os problemas só começam quando colocamos os pézinhos no chão… e, além disso, também é uma caixa de surpresas… Quantas vezes lá entramos quase com uma depressão e dela saímos com um folgor novo.

Mas quando as coisas estão mal e parece que só vão piorar quando pousarmos os pés naquele chão frio, o melhor é mesmo não sair.

É.

Monday, November 15, 2010

O voo da borboleta

 

Estou perdido.

Não consio encontrar-me. Deixaram-me aqui nesta Lua e disseram-me para encontrar o meu caminho. Só por mim. E caramba, eu tenho tentado. A última viagem foi, sem dúvida, um passeio pelo Mare Crisium. Um mar de tempestade que abalou as nossas embarcações, um vento exasperante que virou as nossas proas, cada uma para seu lado, chuvas torrenciais que fustigaram as velas e castigaram as nossas naus… Vagas monstruosas quiseram engolir as nossas vidas mas, sempre forte, o timoneiro manteve-se ao leme e a tormenta foi vencida…

E quando finalmente abri os olhos, quis ver e não te encontrei. Perscrutei o horizonte, mil vezes torneei a cabeça em tua busca, esperando a vista alcançar-te de cabelos soltos à mercê da brisa da bonanza. Mas não te encontrei… o que vi, sim, foram milhas e milhas de escuridão, extensas planícies de mar, totalmente desprovidas de caravelas, veleiros, jangadas ou o que fosse. Um imensidão vazia, um longo tapete sem destino…

“Onde estás?” procurei. E foi nessa altura que vi. Foi nessa altura que percebi. O céu e o oceano tocaram-se, o Sol de um lado, a Lua do outro, puderam testemunhar esse segundo, esse preciso momento, em que a realidade caiu sobre mim… Neste mar que outrora fora nosso, jazem os vestígios de um grande dia em que as nossas vidas, como que dois galeões, cruzaram caminhos. Atracaram no mesmo porto e sob o mesmo luar, saborearam o paladar fresco da celebração. E ao fim da noite, aqueceram-se frente ao mesmo fogo, exactamente a mesma chama de onde são forjados os beijos da paz.

Nova tempestade veio. Tornou a nau a sobreviver. Mas algo estava diferente. Aqui estou eu, a rumar submisso à vontade do vento, por entre inúmeros vestígios da festa do dia anterior. Pedaços de uma vida, espalhados pelas ondas, arrastados na maré, e que embatem no meu casco. Retornam a mim como que para me lembrar de tudo o que era e já não é, como se eu precisasse dessa lembrança. Impõem-se a mim, como adagas a escrever-me na pele, a perpetuar este Destino.

A vida rasgada, não é madeira, não é ferro, é… é um caminho longo e desconhecido…

Estou perdido.

Thursday, November 11, 2010

: ...

"Maybe I should be more discrete
serve you up some sugary sweet
I could be the wildest of childs
that's not a real feat
Blessings come but favors they go
troubled by the whispers they know
I could sink but I'm not the type
I don't need to hide
YOU WANT ME NOW
BUT THAT'S NOT ENOUGH
COS I WANT YOU FOR A LIFETIME
YOU SAY IT LOUD BUT YOU TALK TOO MUCH
I STILL WANT YOU FOR A LIFETIME TODAY
I can leave but I stay to pray
maybe on my knees you'll fail
no one moved so no one got hurt
this could be the day that you'll learn...today."

Friday, November 5, 2010

Lua Nova

philcUK-1255695522Tenho uma nova casa… tenho uma nova vida… vou deixar para trás as coisas da minha vida anterior, vou sair daquela casa que me viu nascer, que me viu crescer, que viu todas as minhas faces… vou largar aquele espaço repleto de cheiros, cores e emoções daquela vida que lá deixo. E quando sair, vou trancar aquela porta e não vou olhar para trás…

Saio em busca de outra coisa, de outra vida… mas não saio muito convencido… porque não quero uma vida nova. Eu quero a minha vida anterior de volta… mas diferente… não quero começar de novo – porque é isso que parece que estou a fazer… mas na realidade, é um engano. É a Lua Nova. Porque quando chegar à nova casa, vou descobrir que todas as coisas que deixei na casa velha vão lá estar… não me consigo livrar delas… não posso livrar-me delas… tenho que as carregar comigo… porque fazem parte de mim… O Mare que procuro está ao alcance… mas não há folhas em branco nesta história.

O melhor será pegar na primeira e escrever, nos espaços livres. Mas o que está escrito, está escrito. Posso escolher outra cor, mas as novas palavras têm que encontrar o seu lugar entre as antigas.

Não te iludas, rapazinho, casa nova será… mas a nova vida, essa, articula-se por entre os despojos da anterior… caso contrário… como poderia uma pessoa negar-se a si própria? Como poderia eu prescindir da minha essência?

Não, das palavras perdidas nascerão outras e juntas, marcarão o meu sangue… e quando olhar para o horizonte lá vislumbrarei a Lua, sempre presente, para guiar o meu caminho…