Wednesday, July 24, 2013

A banda de Moe:bius

Sinto-me em paz. Não aquela paz que se sentiria no dia em que todas as armas de destruição maciça do mundo fossem destruídas e que, por artes mágicas, fosse sabido que não seria possível nunca, nunca mais, criar outras. No dia em que as pessoas baixassem os braços e largassem as armas e, novamente, os levantassem para, num gesto único, se unirem num abraço colectivo. Que as mãos não mais esmagassem ou destruíssem e que antes criassem símbolos de harmonia e distribuíssem calor e alegria. E poderia continuar eternamente a disparar estes pequenos tiros de perfeição ideológica crónica...

Não. A paz que eu sinto é mais aquela que se sente naquele momento em que ninguém se está a matar, nem a invadir espaços vizinhos, nem a executar os seus planos. Não, neste momento, toda a gente está a ocupar as suas posições estratégicas, a definir as suas tácticas, a planear o que tomar a seguir e quando, e quem vai confrontar e como. Neste momento, toda a gente está espectante, observando os movimentos do adversário, à espera do melhor momento para agir, preocupada em não ser apanhada desprevenida. Nesta fase, qualquer fagulha tem o poder incontestável e incomensurável de despoletar o incêndio à escala global que faz com que aquele que é conhecido como o “Planeta azul” assuma uma cor alaranjada... a cor do fogo quando arde, a cor do inferno quando sobe à Terra.

É este tipo de paz que eu sinto. É saber que estou neste ponto alto, e que para cada lado estão pontos sucessivamente mais baixos onde imperam o conflito, a ansiedade, a angústia, a raiva, a tristeza, a frustração... Que qualquer empurrão me remove desta aparente trégua emocional, desta posição única e deliciosamente periclitante...

A constante noção de desequilíbrio faz-me dar valor a cada nanosegundo que persisto nesta posição ingrata e tortuosamente exigente de manter. Faz-me saborear cada momento sem medo, sem receios, sem remorsos, apenas sinceridade, humildade e um olhar recheado de imprevisibilidade...

Sinto que toda esta alegoria falha em traduzir a plenitude daquilo que é o meu estado de espírito neste momento...

Partindo da noção que tal seria praticamente impossível de acontecer neste nosso mundo, prossigo com as metáforas:

...é como se todas as partes do conflito se sentassem à mesa e abrissem o livro das negociações, onde figuram todas as condições pretendidas, de forma sincera e honesta e onde se inventoria todo o historial, todo o arsenal existente – no fundo, tudo o que justica o facto de se estar nessa mesa, neste momento.

Contudo, talvez seja melhor finalizar as estilísticas por aqui pois a complexidade da mente e vida humanas fazem com que este género de comparações tenham um efeito redutor... é caso para dizer que as semelhanças acabam por aqui...

Vou, talvez, e para finalizar, fazer uma última comparação que, na minha modesta opinião, não falha em fazer jus às vicissitudes da vida...

Existe, por ventura, um paralelismo inigualável entre as pessoas e a beleza complexa e aparentemente intangível da natureza quântica – e dual – da realidade.

Na medida em que quantificar uma determinada grandeza – isto é, analisar e explicar determinadas sensações, comportamentos ou atitudes é algo que não pode ser feito de forma rigorosa. Mais, é algo que não pode ser levado a cabo até ao fim. Porque fazê-lo implica desconstruir, implica escrutinar a natureza de todas essa coisas. E quando chegamos ao fim dessa nossa dissecação, deparamo-nos com os diversos componentes que acabámos de separar mas, todavia, estes deixam de fazer sentido como um todo, perdem o seu significado, perdem a sua energia motriz. É um caso em que o acto de “fazer uma medição”, altera o próprio valor medido. Pior: altera a própria natureza da medição...

E se mentes tão brilhantes como Pauli ou Heisenberg (apenas para homenagear alguns) não espelharam nas suas postulações a complexidade inerente ao ser humano, talvez o tenham feito inadvertidamente ao mostrarem ao mundo a natureza quântica do universo e permitirem-nos observar que ela permea e se faz sentir, de forma tão semelhante, no próprio comportamento humano.

Tuesday, July 23, 2013

Antes

 

Julguei que compreendia, julguei ter entendido.

Julguei observar o lábio e ouvir a palavra,

julguei ver o olhar e ler o pensamento.

Julguei escutar as palavras e deduzir o seu significado.

E em todos esses momentos, rejubilei por entender, por ouvir, por perceber, por conseguir deduzir. E tanto o fiz, que não compreendi, não observei, não vi, nem escutei a reacção a esse meu momento de vitória.

Na candura desta convicção, na simplicidade desta decepção,  lancei-me do topo desta minha montanha de entendimento. Viajei, em queda livre, durante dias.

Durante dias, apenas quis cair, apenas senti o vértigo, apenas tolerei o estômago em protesto. Fez-me ver a verdade, fez-me entender a realidade, a queda.

Achei que compreendia. Cheguei a ter pena de outros, porque achava que eles não entendiam o que era óbvio. O que eu conseguia entender facilmente. Achava que sabia ler, achava que sabia escutar, achava que percebia a intenção.

E se há algo que descobri é que na realidade, quem não sabia, era eu.

Chorei. Gritei. Quis cortar as raízes que me prendiam a essa ilusão, quis rasgar o sonho que me haviam prometido.

Acordei lá em baixo, de costas para o que restava desse trajecto descendente, e de braços abertos. Como que a acolher tudo o que deixei para cima… e aí vi, um céu cor-de-laranja, e uma Lua feiticeira… lá bem no alto…

Distante…

Respiro fundo, e mergulho naquele leve vento ascendente de Verão, sinto a pele a enrugar com o contraste do calor, sinto os pulmões expandirem-se com as labaredas ardentes desse ar…

Não mais acho que compreendo ou que entendo. Mas procuro.

Quero descortinar as notas misteriosas da palavra. e observar o lábio que, tal qual violino ou piano, as produz placidamente.

Quero beber os pensamentos, imaginá-los e vivê-los, por eles e através deles. Atento no olhar, como pintura insondável,  como quadro intemporal.

Dobro o sentido, transcendo o seu significado, escuto apenas a sua forma, sinto meramente o seu toque subtil.

Num ápice, num microsegundo de pura loucura, olho para mim, vejo-me de fora para dentro…

E nisto, saboreio o sorriso que se me desenha no rosto…

Friday, July 19, 2013

Percursos

 

Caminharei em direcção a esse ponto onde o céu toca a terra,
deslizarei ao longo do corpo esguio e sedoso da vida
até que no tempo perdido de outrora, me encontrarei...

por detrás da bruma da verdade me oculto,
de entre as letras da mentira me materializo.

E contudo… é por elas que me revelo,
liberto-me, através de palavras inebriadas...

Que jorram da minha boca como um Mar de Ilusões,
Que irradiam da minha mente como raios de luz...

Para se despenharem contra a muralha da sedução,
a barreira intransponível de outros tempos...
as marcas indeléveis de facas que rasgam a pele,
o coração, os olhos... a alma...

A salvação que eu procuro, o doce gesto que rejuvenesce,
tal qual Fénix renascida das cinzas da perdição,
como as lágrimas salgadas que teimas em não brotar
como o sorriso doce que guardas só para ti...

E se nas teias sedosas da mentira não me transformar em Lua,
quero adormecer profundamente nos braços efémeros da verdade...