A nossa vida é, a meu ver, como uma folha de papel. À medida que crescemos e vivemos, vamos escrevendo nessas páginas tudo aquilo que nos define como pessoas. Nessas folhas reside a essência do nosso ser, para elas são transportados os episódeos do mundo exterior, assim como as emoções, sentimentos, que constroem o nosso enredo, e que nos são imanentes.
A grande maioria destas páginas são escritas por nós, mas existem situações em que deixamos outras pessoas escrever também.
À medida que se escreve, o nosso tipo de letra vai sofrendo algumas alterações. Por vezes optamos por incliná-la para a esquerda, por outras ela está para o lado oposto. Mas também há aqueles cuja letra não tende para nenhum dos lados…
Melhor ainda, a vida é, na realidade, como que um amontado de folhas. Algumas destas folhas estão agrafadas, outras formam, como se de um livro se tratasse, um bloco coeso que podemos folhear, arquivar e ler sem receios de as estragar. Todavia, outras há que estão soltas e permanecem simplesmente entre as restantes. Por vezes ficam no início, noutras ocasiões vão para o fim do monte. Mas são, não obstante, folhas que não conseguimos juntar propriamente às restantes, quer porque não se encontra um montinho ao qual anexá-la, quer porque não há agrafe, clip ou cola que consiga mantê-la junto com as outras.
Inevitavelmente, numa sucessão de eventos que nem sempre é fácil recrear, perdemos uma dessas folhas soltas. Pode tratar-se de uma página em que estamos a escrever, ou de outra qualquer, já escrita em tempos, talvez até enrrugada e manchada pelo passar dos anos. Algumas nem nos importamos de perder e, no rescaldo do acontecimento, até nos interrogamos porque motivo guardámos aquela folha ali. Outras é talvez indiferente que a sua existência deixe de animar o nosso livro da vida. Depois há aquelas que não queríamos de maneira nenhuma perder, que nos são sagradas. Mas perdemos. E choramos, desesperamos. Achamos que nunca vamos conseguir voltar a escrever daquela maneira. Que as palavras que lá depositámos nunca mais serão as mesmas. Mas a verdade é que nos recordamos, palavra a palavra, vírgula por vírgula, ponto por ponto, de tudo o que lá estava escrito nessa folha. Mas choramos à mesma porque sabemos, tal como todo o escritor que se preze sabe, que raramente se escrevem duas páginas iguais neste livro.