Sunday, July 15, 2012

Lost in time…

Ontem interrompi o meu trabalho por umas horas e dediquei-me à tarefa importante e prazenteira de ir jantar e beber um copo com alguns amigos.

Utilizei o termo “tarefa” e apercebo-me agora que a sua aplicação não podia ser mais desadequada… não se trata de uma tarefa… é simplesmente, o que somos. O que queremos. A forma como encaramos a vida e como nos articulamos, na sua marcha através do tempo, entre os seus tentáculos plenos de vicissitudes que a polvilham…

Não adianta escondê-la, omití-la ou mascará-la. A árdua realidade é que à medida que acumulamos tempo nas nossas vidas, passamos a sentir, cada vez mais, a sua passagem… inicialmente era uma leve brisa, como que um ondulante tecido, acariciando-nos a pele, praticamente sem nos tocar… agora o seu contacto é inevitável, impossível de ignorar, embora possa ser bom e pacífico… ou angustiante e dilacerante.

Posso dizê-lo, todos passamos dos 30, somos ainda jovens – porque o somos, aos olhos da sociedade, porque nos sentimos como tal e, mais importante, porque o escolhemos ser nas nossas mentes, mesmo que tal não derive de um mecanismo cognitivo. É o que somos, não o devemos temer, mas sim abraçar a realidade com força, num enlace apertado, como dois amantes que não se querem separar…

Uma dessas pessoas com quem estive queixou-se de que “já não era tão feliz como há uns anos atrás”. Que a vida como ela é, nos leva a locais onde as preocupações, o stress, a família, o trabalho, as nossas ambições, os nossos sonhos, ocupam um lugar de destaque, mas que às tantas não somos tão felizes, porque estamos preocupados com tudo isso, e nem sempre vivemos aquilo que nos diz respeito com a intensidade que, provavelmente, deveríamos. Eu julgo que à medida que avançamos, cada vez sentimos mais o aperto, o estreitar do caminho, a perda de espaço de manobra, especialmente se nos sentirmos algo presos pela vida que temos.

Face a este desabafo, penso no meu próprio percurso… mas tenho uma certa dificuldade em temporizar… é certo, consigo recuar, por exemplo, 5 anos… 3 anos… 2 anos… e nesse período, talvez pudesse ter um estado de espírito semelhante… mas não agora… os últimos dois anos foram, para mim, como um atropelo de eventos, de decisões, de emoções… tudo se desenrolou de forma muito rápida e loucamente intensa… Percebo que todo esse turbilhão se deve essencialmente à rotura que houve e tudo o resto é consequência do necessário ajuste posterior.

Chegar a esta fase e experienciar essa quebra no continuum fez com que tudo assumisse novas proporções. Não deixo de sentir a presença e existência, na minha vida,  de muitas das angústias espelhadas no desabafo dessa pessoa amiga… Vejo-as à minha frente, sei que terei de conviver com elas. Mas não as receio, não temo que elas tomem conta da minha vida… cada vez mais sinto a capacidade de me libertar delas… sinto que quero e que posso viver, não por causa delas… mas apesar da sua existência...

E tão rápida é a passagem do tempo e da vida pelos nossos sentidos, pelos nossos corpos, pelas nossas mentes, pela nossa pele, que quase parece um luxo esquecido poder desacelerar a textura do tempo… parece um doce proibido poder saborear cada gota desse elixir temporal, e fundir-me em cada instante, com esse momento presente… e vivê-lo sinceramente, como se não fosse necessário pensar no próximo instante.

Perder-me no tempo, deixar a vida espraiar-se diante de nós, escolher cada flor, cada pedaço como um só, e abraçá-la num laço terno, prolongado e intenso.

Faço-o como se nada mais houvesse, num gesto exuberante de querer extravazar esse sentimento.

E quando olho para o horizonte sei, tenho a certeza, que não o trocava por nada neste mundo…    

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