Thursday, April 18, 2013

Em tão pouco tempo escureceu tanto…

Há dias em que chego a casa e ponho música violenta, agressiva, libertadora, aos altos berros… e se me apanharem num dia bom, sou ainda capaz de acompanhá-la com uma dança ridícula qualquer… vibro, tremo, agito-me, como se para libertar uma qualquer energia perdida e aqui acumulada…

Noutros dias chego calmamente e anseio um piano concerto de Mozart ou Beethoven… ou talvez uma peça de Rachmaninoff, se me sentir mais complicado… Quem sabe, uma valsa ou um nocturno de Chopin? Se procuro algo mais quente e reconfortante talvez um violino perdido nas peças de Bach, se mais cortante e irrequieto talvez procure um Tchaikovsky, quiçá devaneie meio ébrio com a doçura de um Schubert… Por vezes não quero impor nenhuma sensação em particular, quero apenas flutuar ligeiramente e acompanhar um ritmo… aí vou descobrir clássico Strauss, um doce Haydn ou um eterno Mendelssohn… e no entanto, tudo isto me cansa…

Mas há aqueles dias em que chego a casa, inspiro profundamente e sinto um cheiro que já é meu, já é próprio, já é característico… e desejo apenas escutar o seu silêncio, ou perder-me nele e ouvir apenas o som da minha própria respiração, contrastante com o silêncio que preenche este meu espaço durante quase sempre… fechar os olhos, e tentar ouvir o bater do meu coração e apenas conseguir ouvir esta voz que me enche a cabeça… abrir a boca e proferir um som, para confirmar que o silêncio impera…

Um silêncio que amplifica a minha voz interior, um silêncio que dança agarrado as valsas de Chopin – as minhas favoritas…

Um silêncio que me dá paz, que me dá um sorriso, um sussurro ao ouvido, um abraço apertado… – ou ansiar ter tudo isso…

No final, fico pronto para o próximo dia, para o próximo momento em que irei entrar em casa, sem saber o que me vai apetecer ouvir: o feroz electrizante, a doçura do clássico, a paz ou loucura do silêncio… ou melhor, o mar de possibilidades infinitas intermédias… que me fazem mergulhar e sorrir, sem saber o que escolher…    

Wednesday, April 3, 2013

Allegro ma non troppo

 

Gostaria de entender tudo aquilo que move o mundo,
de compreender as pequenas oscilações das suas engrenagens.

Gostaria de flutuar entre as nuvens, mergulhar no mar,
deitar-me na terra de onde nasce a árvore
e percorrer os seus jardins, polvilhados de vida...
E com apenas uma golfada de ar, inspirar toda essa energia,
captar o cheiro que alumia os sonhos,
entregar-me ao frenesim e agitação de reunir num único ponto,
tudo aquilo que procuro compreender...

Mais não sou do que um simples grão de areia,
uma partícula no ar,
uma bolha qualquer na orla marítima,
um rasgo cromático no prado multicolor...
 
De cada vez que me aproximo para colher uma flor,
criva-se um espinho na pele...
É esse o passo, é esse momento,
é essa voz irónica que abre o horizonte...

Queres olhar e, num relance, ler o mundo
quando uma vida não chega para o teu proprio livro...

“o mundo é tudo aquilo que julgas sentir,
quando no coração não encontras palavras que o definam,
quando nos teus gestos não vês o perfume que te impulsiona,
nem osculas, no sabor doce e inspirado da loucura,
o toque magistral da incompreensão e do irracional.”