Hoje dei um berro. Não aguentei mais e dei um berro. Não um berro literalmente, pois a minha voz manteve-se serena. Aliás, foi melhor que isso: a minha voz manteve-se absolutamente silenciosa e, mesmo assim, soou um berro aqui dentro, como se estivesse a utilizar os meus pulmões em toda a sua plenitude. Para completar o cenário, resta acrescentar que, embora silencioso, o grito foi ouvido perfeitamente.
Andava a prender o fio do controlo há muito tempo, andava a segurar o chapéu da restrição há tempo demais. Por diversas vezes procurei oferecer a quem não aceita, tentei explicar a quem tudo sabe, almejei dizer a quem não escuta. E em cada tentativa encontrei aquela resistência teimosa.
Até hoje. Apeteceu-me mandá-los todos à merda. E assim fiz. Mandei-os todos atirarem-se à doca. Mas sempre de forma educada e tentando não perder a compustura.
Dediquei alguns momentos do dia de hoje a reflectir sobre este assunto. Se a nossa presença pudesse ser materializada num contínuo, ela não seria um meio totalmente liso. Apresentaria pequenos espaços, criando como que uma superfície rugosa, com reentrâncias e saliências. Esses espaços, ou reentrâncias, permitem uma “visão” mais íntima da nossa presença, da nossa essência. E geralmente apenas permitimos que nelas permeem as pessoas mais próximas, mais importantes. O acesso aos nossos espaços é algo com que nos sentimos à vontade, não fossem pessoas que nos são queridas, da nossa esfera de confiança. O problema surge quando estas começam a querer alargar o nosso espaço. Aí configura-se o conflito.
Por vezes revela-se necessário restituir a “pureza” inicial desses nossos espaços. Daí o berro.
E por uns tempos, voltamos a estar em paz.
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