Thursday, October 24, 2013

O puzzle da vida…

À medida que o novo dia avançava, dei por mim a pensar: “vai dormir, vai dormir…”

Mas senti a vontade de escrever… sem saber exactamente sobre que tema, sem sequer ter um fio condutor… mas senti a necessidade de escrever algo, algo que me deixasse a mente mais serena, o coração mais prudente. Mas não. Continuo tão agitado e irresponsável como sempre… tão incontrolavelmente eléctrico e demoníaco como dou por mim a ser, de tempos a tempos.

Mas não. Por vezes debato-me contra a minha raivosa solitude e, no entanto, aí encontro a minha verdadeira paz… delicio-me na imensidão do meu espaço, do espaço que me permito ter, da bolha pela qual procuro respirar o mundo…

Quero ter todo esse ar que inspiro, quero ver as pessoas que me importam abraçadas ao meu coração, mas tudo o que consigo ver é a outra face da Lua… onde esses pontos fulcrais da minha vida se encontram… na escuridão…

Mil vezes me pergunto porquê, mas as respostas, essas, tardo em tê-las…

Não as encontro em mim, no mundo, nem nas coisas… e se a solução reside nas pessoas, então não consigo avistá-la pois ela está muito bem escamoteada na sequência incontornável da vida…

Quero vê-la aqui, quero sentir o seu toque, o seu calor, enquanto paira sobre mim, bem perto, emanando a sua aura misteriosa… e entretanto vou absorvendo essa essência mágica que me faz sonhar, que me faz olhar para o horizonte e ver mais do que o pôr-do-Sol…

Faz-me ver o sonho, crava-me desespero na pele… mas ainda assim explode em mim a vontade de ser… e ser… e ser…

Ser…

Sou mais que a soma das partes e, no entanto, mais não sou do que parte da soma… completo-me e simultaneamente, aguardo exasperadamente pela peça que me tornará uno, que me fará único, que me deixará completo…

Que me trará a imensidão de um sorriso, a simplicidade de uma lágrima…

… e uma alegria infinita…

Friday, October 18, 2013

Caesium

Sempre tive uma relação estranha com certos números, no sentido em que alguns, por razões que nem sempre permanecem dentro das fronteiras da minha compreensão, exercem sobre mim um certo poder. Provavelmente todo o valor que eu possa atribuir a esse alegado poder deve-se única e exclusivamente ao facto de eu inerentemente lhes permitir esse atributo.

E muitas vezes, não se trata apenas do número em si, mas antes do contexto em que o número aparece. Outras vezes, não é o número que interessa mas sim a conjugação de dígitos.

Recordo-me há uns largos anos de, durante as férias ter acordado vários dias seguidos, olhar para o relógio-despertador e constatar que marcava: 12:34. Não há nada de especial nesta hora, nem neste número, excepto o facto de consistir na sequência dos primeiro quatro números naturais. E contudo, sempre que me deparo com esta hora, sinto uma súbita vontade de marcar o momento, de fotografar o relógio, como se tratasse de um acontecimento único, a imortalizar… Outro que me incute um comportamento semelhante é quando o relógio marca 22:22. Mais do que às 11:11.

Isto talvez pareça absurdo, possivelmente até Ri-dí-cu-lo, mas não deixa de ser um fascínio que tenho. Sempre que o relógio marca uma destas horas, e eu tenho a felicidade de presenciar o momento, sinto que o tempo pára por uns segundos e apetece-me gritar para toda a gente:

“HEY!!!!! Pára tudo! Reparem! É 12.34!!! Não é fantástico?!?”

E consigo imaginar-me a apontar para o relógio e toda a gente a olhar para mim com ar confuso…

“mas o que é que este gajo quer?”

“não sei, mas ele está para ali a esbracejar e a apontar para o relógio…”

Por uns segundos, é mesmo como se o tempo parasse, é como se por aquele período de tempo valesse a pena parar tudo para contemplar aquele evento único, mágico, da natureza…

Primeiro, não é único. Acontece todos os dias, à mesma hora e, dependendo dos relógios e/ou das nossas preferências, até pode acontecer 2 vezes por dia.

Segundo, não é natureza. É, sim, natureza humana. Esta vontade incontrolável de tudo perceber, tudo compreender e de tudo manipular… Não compreendíamos o tempo, a sua continuidade, nem entendíamos como ele se comprime e expande no seu próprio desenvolvimento… então toca a partí-lo em bocados até o tornarmos mais palpável… e depois, inventa-se algo para marcar cada um desses pedaços em que o dividimos…

O tempo flui, suave e inconstante, determinado e incontido, por esse espaço fora, permeando as nossas vidas… ele vem contra nós, trespassa-nos e prossegue o seu caminho, arrastando-nos no processo…

E tal como ele, também as nossas vidas são assim, também elas pairam, deslizam e escorrem pela tecitura do tempo e do espaço. Há apenas um sentido, uma direcção. Talvez ritmos, cadências diferentes.

E se muitas vezes nos parece que o tempo passa a correr ou que se arrasta lentamente, na realidade isso não acontece… o tempo é um bastião de serenidade, de paz, de consistência.

Na verdade, não é o tempo que se dilata ou contrai; a derradeira constatação é que somos nós que vivemos a vida mais rapidamente ou de forma mais lenta…

E se num desses minutos “mágicos” que eu falo – é apenas um minuto – que diferença fará se o tempo parar ou se, em vez disso, pararmos nós? Qual é efectivamente a diferença?

E se durante um minuto o tempo puder parar para mim e eu puder cheirar esse minuto, saborear esse minuto, sorrir esse minuto, contemplar esse minuto por aquilo que é – um minuto de pura luz, um minuto de ar, um minuto de lágrimas, um minuto escutando a sinfonia do silêncio, um minuto na minha companhia, um minuto entrelaçado nos braços do coração…

… então, porque não?

Thursday, October 10, 2013

10-10-10

Cada nota que toco é um mar de significados.

Cada colcheia, um oceano de incertezas.

Cada fusa uma dor que recordo, de cada vez que abro os olhos de manhã… e em toda essa harmonia encontro um fio condutor, encontro uma esquadria que me salva…

Percorro todos os tons, oitava a oitava, em busca daquela nota, aquela que ressoa, aquele Lá certo… e canto com a minha voz tímida enquanto espero ouvir um uníssono.

Silencio-me para te ouvir… para distinguir, entre a multitude de sons que compõem a luz do dia, aquele timbre específico, aquela minúscula canção…

Mas nunca vieste… nunca te encontrei… o grito mudo que entoou fez da palavra, coração.

E assim eu espero, sem fuga ou andamento, embalado pela voz, perdido no som, de sorriso na mão e de lágrima ao vento…