Sunday, March 18, 2012

… e massacro-te os ouvidos.

Nunca tive muito jeito para desenhar. Nos breves momentos em que me dispus a corajosamente tentar transpor a minha percepção da realidade para o papel, fiquei sempre com aquela noção de que havia algo que faltava. Um traço para aqui, um leve toque do lápis para ali, um pequeno esfumado aqui, um contorno inexistente mas que a mente vê claramente…

E sempre senti que onde as limitações físicas podiam ser ultrapassadas – aprendendo novas técnicas, apurando a forma de utilizar os instrumentos – , havia ainda aquela parte dentro de mim que quer exprimir-se mas que não consegue ser canalizada para o mundo material.

E falo especificamente de desenho porque, embora a pintura, em toda a sua abrangência, seja uma arte que consegue deixar-me no meio do deslumbramento e despertar algumas emoções, nunca foi capaz de igualar a plétora de sentimentos que o desenho a lápis move no meu interior.

Existe uma magia poética, um calor imanente que eu não consigo sequer descrever. Provavelmente poderei estar errado, mas para mim, há algo fascinante, diria construtiva, na forma como o traço, aparentemente simples e puro, consegue permear tal dimensão a toda a composição, ao desenho final. Harmonia, profundidade, sentimento, calor.

Talvez se pudesse dizer mais sobre isto, e até muito mais sobre a pintura e outras formas de desenhar, mas eu não tenho dúvidas:

O lápis é o meu eleito.

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