Já não preciso de afastar a ideia.
Já não quero questionar.
Não preciso saber o que define, o que caracteriza nem o que faz com seja real...
Não. Agora só consigo preocupar-me em sentir, só quero encontrar o caminho perdido na mente... e que se encontra... no coração...
Não encontro nem procuro resposta para aquela eterna questão:
“O que é o amor?” Não encontro, nem quero encontrar. Tenho raiva da pergunta, da sua placidez, da sua indulgência, e detesto a resposta, tão rendida, tão sujeita, tão intangível... e quem a possa procurar ou fornecer.
Mas esta não é uma mensagem de ódio. Não, nada disso. Antes pelo contrário... Mas sinto-me intrigado pela necessidade de querer, das mais ricas profundezas do ser humano, vulgarizar algo tão intenso como um quasar ou incompreensível como um sentimento...
É como querer guardar num pequeno frasco de vidro a essência, o resumo de um sentimento, de um impulso, de uma força... é como querer fechar nesse pequeno invólucro todo o ar do planeta, os ventos alísios, o sccirocco, tudo!... é como querer reunir num pequeno recipiente de vidro todas as lágrimas que são vertidas por alguém, a qualquer momento, em qualquer parte do mundo, por alguém...
Se é difícil de entender todo este palavreado, se é difuso o significado subjacente em todas estas figuras estilísticas, eu digo, aberta e simplesmente:
Não cabe... meus queridos, é escusado... não cabem...
Não as podemos guardar, não podemos aprisioná-las para mas tarde sentirmos o que outrora nos fez criá-las... não! Cabe-nos saboreá-las, a cada momento, enquanto elas descem pela nossa face, e perceber o quão salgadas são, e percepcionar quanto da nossa alma se liberta através desse elixir lacrimejante...
Em todo o processo que é o desenrolar da nossa vida, irão surgir, certamente, momentos em que nos apetece morrer, de tão inatingível que é o conceito, a pergunta. Outros em que nos sentimos capazes de matar, só para obter uma resposta, apenas para tocar naquilo que não é material, apenas para quantificar uma medida do incomensurável... ou poderá ser-nos tão indiferente como o primeiro raiar da manhã e a chegada das andorinhas com o fogo dos rebentos e das flores... Ou tão inócuo como a sua partida, o voo de despedida, o seu percurso célere, antes do adeus sazonal, à primeira folha de Outono...
Mas em todos eles, resta-nos uma noção, um conceito, que nos fará sorrir e sentir um calor aqui, quando olharmos para aquele horizonte vermelho e roxo... apenas perturbado pelo estilhaçar daquele frasco onde tentámos aprisionar tudo o que podíamos ser...
Não cabe...