Thursday, August 2, 2012

As que não foram escritas para serem lidas…

As palavras que aqui deixo são geralmente palavras banais. A sua sequência traduz, na maior parte das vezes, um certo cuidado em revesti-las de uma certa opacidade, em tornar os seus contornos difusos. Porque muitas vezes, não sendo as palavras em si, reveladoras, são-no os pensamentos que estão na sua génese, isto é, para quem, no espaço entre as palavras perdidas, os consiga destrinçar.

Faço-o porque é esse o propósito deste espaço. Porque outrora senti a necessidade de ter um meio de exteriorizar e eliminar do sistema certos pensamentos, certas ideias. E porquanto exista essa necessidade de deslocalizar esse objectos cognitivos, cresce em paralelo uma sede de ser ouvido, de ser lido, de sentir que a parede, aparentemente inerte, afinal tem ouvidos. E nessa busca de algo que completa o propósito, reside simultaneamente o motivo da sua aniquilação.

Eu passo a explicar. Somos performers em palco. Este é o nosso palco. Este é o nosso espectáculo. Eloquentemente, de forma solta e despreocupada, palramos e então estabelecemos o nosso monólogo. Não vemos o público, não o sentimos mas achamos que ele está lá. E isso chega-nos. Dá-nos o propósito. E por um tempo, tudo está como devia estar.

Mas chega o dia em que, ao terminarmos a nossa actuação, olhamos para a audiência e vemos os seus olhos, reconhecemos os seus rostos. E sem que nos apercebamos, já estamos condicionados, já sabemos que estamos na mira. E no próximo espectáculo há qualquer coisa que nos detém…

Nessa fase sentimos que se perde o efeito libertador. Por vezes queremos ir mais longe, descobrir um pouco mais o manto… mas esses olhos seguem-nos e a contenção é inevitável.

Por diversas vezes, quis derrubar essa barreira, libertar-me dessa pseudo-mordaça que me castra as letras. Ainda não tive coragem. Mas sinto em mim essa vontade a crescer, como se de uma bolha se tratasse…

Talvez amanhã acorde e, ofuscado pelas luzes, inebriado pela respiração daqueles que comigo partilham o anfiteatro, resolva fechar os meus olhos… respirar fundo… e fazê-los desaparecer…

e aí… sorrir e…

…quem sabe?

Falar, cantar, saltar, dançar como outrora, declamar todos os poemas, libertar-me na magia dessas palavras perdidas…

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