Sinto-me em paz. Não aquela paz que se sentiria no dia em que todas as armas de destruição maciça do mundo fossem destruídas e que, por artes mágicas, fosse sabido que não seria possível nunca, nunca mais, criar outras. No dia em que as pessoas baixassem os braços e largassem as armas e, novamente, os levantassem para, num gesto único, se unirem num abraço colectivo. Que as mãos não mais esmagassem ou destruíssem e que antes criassem símbolos de harmonia e distribuíssem calor e alegria. E poderia continuar eternamente a disparar estes pequenos tiros de perfeição ideológica crónica...
Não. A paz que eu sinto é mais aquela que se sente naquele momento em que ninguém se está a matar, nem a invadir espaços vizinhos, nem a executar os seus planos. Não, neste momento, toda a gente está a ocupar as suas posições estratégicas, a definir as suas tácticas, a planear o que tomar a seguir e quando, e quem vai confrontar e como. Neste momento, toda a gente está espectante, observando os movimentos do adversário, à espera do melhor momento para agir, preocupada em não ser apanhada desprevenida. Nesta fase, qualquer fagulha tem o poder incontestável e incomensurável de despoletar o incêndio à escala global que faz com que aquele que é conhecido como o “Planeta azul” assuma uma cor alaranjada... a cor do fogo quando arde, a cor do inferno quando sobe à Terra.
É este tipo de paz que eu sinto. É saber que estou neste ponto alto, e que para cada lado estão pontos sucessivamente mais baixos onde imperam o conflito, a ansiedade, a angústia, a raiva, a tristeza, a frustração... Que qualquer empurrão me remove desta aparente trégua emocional, desta posição única e deliciosamente periclitante...
A constante noção de desequilíbrio faz-me dar valor a cada nanosegundo que persisto nesta posição ingrata e tortuosamente exigente de manter. Faz-me saborear cada momento sem medo, sem receios, sem remorsos, apenas sinceridade, humildade e um olhar recheado de imprevisibilidade...
Sinto que toda esta alegoria falha em traduzir a plenitude daquilo que é o meu estado de espírito neste momento...
Partindo da noção que tal seria praticamente impossível de acontecer neste nosso mundo, prossigo com as metáforas:
...é como se todas as partes do conflito se sentassem à mesa e abrissem o livro das negociações, onde figuram todas as condições pretendidas, de forma sincera e honesta e onde se inventoria todo o historial, todo o arsenal existente – no fundo, tudo o que justica o facto de se estar nessa mesa, neste momento.
Contudo, talvez seja melhor finalizar as estilísticas por aqui pois a complexidade da mente e vida humanas fazem com que este género de comparações tenham um efeito redutor... é caso para dizer que as semelhanças acabam por aqui...
Vou, talvez, e para finalizar, fazer uma última comparação que, na minha modesta opinião, não falha em fazer jus às vicissitudes da vida...
Existe, por ventura, um paralelismo inigualável entre as pessoas e a beleza complexa e aparentemente intangível da natureza quântica – e dual – da realidade.
Na medida em que quantificar uma determinada grandeza – isto é, analisar e explicar determinadas sensações, comportamentos ou atitudes é algo que não pode ser feito de forma rigorosa. Mais, é algo que não pode ser levado a cabo até ao fim. Porque fazê-lo implica desconstruir, implica escrutinar a natureza de todas essa coisas. E quando chegamos ao fim dessa nossa dissecação, deparamo-nos com os diversos componentes que acabámos de separar mas, todavia, estes deixam de fazer sentido como um todo, perdem o seu significado, perdem a sua energia motriz. É um caso em que o acto de “fazer uma medição”, altera o próprio valor medido. Pior: altera a própria natureza da medição...
E se mentes tão brilhantes como Pauli ou Heisenberg (apenas para homenagear alguns) não espelharam nas suas postulações a complexidade inerente ao ser humano, talvez o tenham feito inadvertidamente ao mostrarem ao mundo a natureza quântica do universo e permitirem-nos observar que ela permea e se faz sentir, de forma tão semelhante, no próprio comportamento humano.
No comments:
Post a Comment