Tuesday, July 23, 2013

Antes

 

Julguei que compreendia, julguei ter entendido.

Julguei observar o lábio e ouvir a palavra,

julguei ver o olhar e ler o pensamento.

Julguei escutar as palavras e deduzir o seu significado.

E em todos esses momentos, rejubilei por entender, por ouvir, por perceber, por conseguir deduzir. E tanto o fiz, que não compreendi, não observei, não vi, nem escutei a reacção a esse meu momento de vitória.

Na candura desta convicção, na simplicidade desta decepção,  lancei-me do topo desta minha montanha de entendimento. Viajei, em queda livre, durante dias.

Durante dias, apenas quis cair, apenas senti o vértigo, apenas tolerei o estômago em protesto. Fez-me ver a verdade, fez-me entender a realidade, a queda.

Achei que compreendia. Cheguei a ter pena de outros, porque achava que eles não entendiam o que era óbvio. O que eu conseguia entender facilmente. Achava que sabia ler, achava que sabia escutar, achava que percebia a intenção.

E se há algo que descobri é que na realidade, quem não sabia, era eu.

Chorei. Gritei. Quis cortar as raízes que me prendiam a essa ilusão, quis rasgar o sonho que me haviam prometido.

Acordei lá em baixo, de costas para o que restava desse trajecto descendente, e de braços abertos. Como que a acolher tudo o que deixei para cima… e aí vi, um céu cor-de-laranja, e uma Lua feiticeira… lá bem no alto…

Distante…

Respiro fundo, e mergulho naquele leve vento ascendente de Verão, sinto a pele a enrugar com o contraste do calor, sinto os pulmões expandirem-se com as labaredas ardentes desse ar…

Não mais acho que compreendo ou que entendo. Mas procuro.

Quero descortinar as notas misteriosas da palavra. e observar o lábio que, tal qual violino ou piano, as produz placidamente.

Quero beber os pensamentos, imaginá-los e vivê-los, por eles e através deles. Atento no olhar, como pintura insondável,  como quadro intemporal.

Dobro o sentido, transcendo o seu significado, escuto apenas a sua forma, sinto meramente o seu toque subtil.

Num ápice, num microsegundo de pura loucura, olho para mim, vejo-me de fora para dentro…

E nisto, saboreio o sorriso que se me desenha no rosto…

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