Friday, October 18, 2013

Caesium

Sempre tive uma relação estranha com certos números, no sentido em que alguns, por razões que nem sempre permanecem dentro das fronteiras da minha compreensão, exercem sobre mim um certo poder. Provavelmente todo o valor que eu possa atribuir a esse alegado poder deve-se única e exclusivamente ao facto de eu inerentemente lhes permitir esse atributo.

E muitas vezes, não se trata apenas do número em si, mas antes do contexto em que o número aparece. Outras vezes, não é o número que interessa mas sim a conjugação de dígitos.

Recordo-me há uns largos anos de, durante as férias ter acordado vários dias seguidos, olhar para o relógio-despertador e constatar que marcava: 12:34. Não há nada de especial nesta hora, nem neste número, excepto o facto de consistir na sequência dos primeiro quatro números naturais. E contudo, sempre que me deparo com esta hora, sinto uma súbita vontade de marcar o momento, de fotografar o relógio, como se tratasse de um acontecimento único, a imortalizar… Outro que me incute um comportamento semelhante é quando o relógio marca 22:22. Mais do que às 11:11.

Isto talvez pareça absurdo, possivelmente até Ri-dí-cu-lo, mas não deixa de ser um fascínio que tenho. Sempre que o relógio marca uma destas horas, e eu tenho a felicidade de presenciar o momento, sinto que o tempo pára por uns segundos e apetece-me gritar para toda a gente:

“HEY!!!!! Pára tudo! Reparem! É 12.34!!! Não é fantástico?!?”

E consigo imaginar-me a apontar para o relógio e toda a gente a olhar para mim com ar confuso…

“mas o que é que este gajo quer?”

“não sei, mas ele está para ali a esbracejar e a apontar para o relógio…”

Por uns segundos, é mesmo como se o tempo parasse, é como se por aquele período de tempo valesse a pena parar tudo para contemplar aquele evento único, mágico, da natureza…

Primeiro, não é único. Acontece todos os dias, à mesma hora e, dependendo dos relógios e/ou das nossas preferências, até pode acontecer 2 vezes por dia.

Segundo, não é natureza. É, sim, natureza humana. Esta vontade incontrolável de tudo perceber, tudo compreender e de tudo manipular… Não compreendíamos o tempo, a sua continuidade, nem entendíamos como ele se comprime e expande no seu próprio desenvolvimento… então toca a partí-lo em bocados até o tornarmos mais palpável… e depois, inventa-se algo para marcar cada um desses pedaços em que o dividimos…

O tempo flui, suave e inconstante, determinado e incontido, por esse espaço fora, permeando as nossas vidas… ele vem contra nós, trespassa-nos e prossegue o seu caminho, arrastando-nos no processo…

E tal como ele, também as nossas vidas são assim, também elas pairam, deslizam e escorrem pela tecitura do tempo e do espaço. Há apenas um sentido, uma direcção. Talvez ritmos, cadências diferentes.

E se muitas vezes nos parece que o tempo passa a correr ou que se arrasta lentamente, na realidade isso não acontece… o tempo é um bastião de serenidade, de paz, de consistência.

Na verdade, não é o tempo que se dilata ou contrai; a derradeira constatação é que somos nós que vivemos a vida mais rapidamente ou de forma mais lenta…

E se num desses minutos “mágicos” que eu falo – é apenas um minuto – que diferença fará se o tempo parar ou se, em vez disso, pararmos nós? Qual é efectivamente a diferença?

E se durante um minuto o tempo puder parar para mim e eu puder cheirar esse minuto, saborear esse minuto, sorrir esse minuto, contemplar esse minuto por aquilo que é – um minuto de pura luz, um minuto de ar, um minuto de lágrimas, um minuto escutando a sinfonia do silêncio, um minuto na minha companhia, um minuto entrelaçado nos braços do coração…

… então, porque não?

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