Há dias em que chego a casa e ponho música violenta, agressiva, libertadora, aos altos berros… e se me apanharem num dia bom, sou ainda capaz de acompanhá-la com uma dança ridícula qualquer… vibro, tremo, agito-me, como se para libertar uma qualquer energia perdida e aqui acumulada…
Noutros dias chego calmamente e anseio um piano concerto de Mozart ou Beethoven… ou talvez uma peça de Rachmaninoff, se me sentir mais complicado… Quem sabe, uma valsa ou um nocturno de Chopin? Se procuro algo mais quente e reconfortante talvez um violino perdido nas peças de Bach, se mais cortante e irrequieto talvez procure um Tchaikovsky, quiçá devaneie meio ébrio com a doçura de um Schubert… Por vezes não quero impor nenhuma sensação em particular, quero apenas flutuar ligeiramente e acompanhar um ritmo… aí vou descobrir clássico Strauss, um doce Haydn ou um eterno Mendelssohn… e no entanto, tudo isto me cansa…
Mas há aqueles dias em que chego a casa, inspiro profundamente e sinto um cheiro que já é meu, já é próprio, já é característico… e desejo apenas escutar o seu silêncio, ou perder-me nele e ouvir apenas o som da minha própria respiração, contrastante com o silêncio que preenche este meu espaço durante quase sempre… fechar os olhos, e tentar ouvir o bater do meu coração e apenas conseguir ouvir esta voz que me enche a cabeça… abrir a boca e proferir um som, para confirmar que o silêncio impera…
Um silêncio que amplifica a minha voz interior, um silêncio que dança agarrado as valsas de Chopin – as minhas favoritas…
Um silêncio que me dá paz, que me dá um sorriso, um sussurro ao ouvido, um abraço apertado… – ou ansiar ter tudo isso…
No final, fico pronto para o próximo dia, para o próximo momento em que irei entrar em casa, sem saber o que me vai apetecer ouvir: o feroz electrizante, a doçura do clássico, a paz ou loucura do silêncio… ou melhor, o mar de possibilidades infinitas intermédias… que me fazem mergulhar e sorrir, sem saber o que escolher…
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