Estou perdido.
Não consio encontrar-me. Deixaram-me aqui nesta Lua e disseram-me para encontrar o meu caminho. Só por mim. E caramba, eu tenho tentado. A última viagem foi, sem dúvida, um passeio pelo Mare Crisium. Um mar de tempestade que abalou as nossas embarcações, um vento exasperante que virou as nossas proas, cada uma para seu lado, chuvas torrenciais que fustigaram as velas e castigaram as nossas naus… Vagas monstruosas quiseram engolir as nossas vidas mas, sempre forte, o timoneiro manteve-se ao leme e a tormenta foi vencida…
E quando finalmente abri os olhos, quis ver e não te encontrei. Perscrutei o horizonte, mil vezes torneei a cabeça em tua busca, esperando a vista alcançar-te de cabelos soltos à mercê da brisa da bonanza. Mas não te encontrei… o que vi, sim, foram milhas e milhas de escuridão, extensas planícies de mar, totalmente desprovidas de caravelas, veleiros, jangadas ou o que fosse. Um imensidão vazia, um longo tapete sem destino…
“Onde estás?” procurei. E foi nessa altura que vi. Foi nessa altura que percebi. O céu e o oceano tocaram-se, o Sol de um lado, a Lua do outro, puderam testemunhar esse segundo, esse preciso momento, em que a realidade caiu sobre mim… Neste mar que outrora fora nosso, jazem os vestígios de um grande dia em que as nossas vidas, como que dois galeões, cruzaram caminhos. Atracaram no mesmo porto e sob o mesmo luar, saborearam o paladar fresco da celebração. E ao fim da noite, aqueceram-se frente ao mesmo fogo, exactamente a mesma chama de onde são forjados os beijos da paz.
Nova tempestade veio. Tornou a nau a sobreviver. Mas algo estava diferente. Aqui estou eu, a rumar submisso à vontade do vento, por entre inúmeros vestígios da festa do dia anterior. Pedaços de uma vida, espalhados pelas ondas, arrastados na maré, e que embatem no meu casco. Retornam a mim como que para me lembrar de tudo o que era e já não é, como se eu precisasse dessa lembrança. Impõem-se a mim, como adagas a escrever-me na pele, a perpetuar este Destino.
A vida rasgada, não é madeira, não é ferro, é… é um caminho longo e desconhecido…
Estou perdido.
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