Às vezes paro para pensar. Paro. Os músculos estacam, num equilíbrio perfeito, o corpo imóvel. Os olhos permanecem fixos, o olhar perscrutando um ponto algures no infinito. “Estavas a olhar para dentro” diria uma amiga minha. “Estás a olhar para ontém” diriam outros. Eu diria que estava a olhar para fora. Para fora de mim, para longe da minha mente, para locais longíquos de onde se encontra o meu corpo paralisado. É verdade, sem nunca me perder, mas distante, não obstante. Talvez não seja pensar, talvez seja algo diferente. Sinto, claramente, os ditos pensamentos, como que imagens, a passar diante de mim.
Às vezes paro para pensar. E vejo-te.
Quem és tu? Não sei dizer. És uma centelha, com uma pequena esfera de calor à tua volta. Uma pequena bolha de vida, como se de ar, como se de perfume… como eu. Como eles, como elas, como nós. Apenas sei que, por um pequeno instante, as nossas bolhas se tocaram muito ao de leve, como um murmúrio, meramente um sopro distante… E foi-me dado a respirar um pouco dessa vida, desse calor que emanas. Quem és tu? Continuo sem saber dizer. És como uma núvem, não sei se escondes um Sol de Inverno ou uma Tempestade de Verão… que finos princípios, ou amargas tragédias guarda essa tua compleição? Saboreio cada segundo que passa, a doce ânsia de não saber, e a dor de sentir que talvez nunca saberei. E tão mágico que é esse momentum…
Às vezes paro para pensar. E não sei como seria se, de repente, me fosse dado a saber. Poderia eu aguentar tal sufoco? O término de tão obscuro prazer?
Às vezes paro para pensar. E se entras nos meus sonhos? Deverei parar de pensar, deverei rasgar esse pensamento? Cardo maldito, estás a envenenar o meu sangue!!!!
Às vezes paro para pensar. “Quem és tu?” pergunto eu. E não obtenho resposta. Então esboça-se um sorriso na minha face, os olhos remexem-se, os músculos tremem. O corpo retorna à vida.
Já não paro, já não penso. Corro, atrás do Sol que já vai longe, atrás da Lua que agora surge. Lanço-me no mare, outrora revolto e estridente, agora sereno e melódico.
Às vezes vejo-te. E a sorrir, adormeço profundamente.
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