Saturday, July 2, 2011

Fantasmas

Hoje acordei triste. Apenas mais um daqueles momentos em que abrimos os olhos, demoramos um pouco a apercebermo-nos da realidade que nos rodeia – olhamos para as horas, isso ajuda-nos a situar –, e sentimos aquela pressão no estômago, um certo aperto no peito. E pensamos: “O que é que eu tenho?”. Depois as coisas começam a vir à memória, primeiro lentamente, como um cardo a entranhar-se na pele, e depois rapidamente como as gotas de água que caem sobre nós num dia de chuva. “Não percebo o que se passa". Mas sabemos. Sabemos o que fizémos, o que deixámos por fazer e o que deveríamos ter feito. Mas preferíamos não saber. E as imagens atropelam-se na nossa cabeça, num rodopio de ideias, que queremos afastar… queremos afastar esses pensamentos…
A pouco e pouco, retomamos a calma. E encaramos as coisas de outra forma, como se impõe: Relativizar. “Está escrito. O que ficou jamais será rescrito.” E olhamos em frente, e concentramo-nos no caminho a seguir, avaliando o que falta percorrer para alcançarmos a meta. Não é difícil preencher a mente com outras actividades e assim nos lançamos para o resto do dia. Mas de vez em quando, ao baixarmos a guarda, ao abrirmos o flanco, a realidade invade-nos. É demolidor, o seu poder. Persistente, incansável, abrindo brechas pelas muralhas mais bem aparelhadas, para chegar aquele ponto minúsculo no infinito que é a nossa atenção.

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