O mundo esperneia, esbraceja como se não houvesse amanhã… sucedem-se desgraças atrás de desgraças… é o colapso da economia, são as más condições climatéricas que espalham o caos um pouco por todo o lado, são os povos africanos que não conseguem fugir ao destino que os trai, o impulso do sangue que lhes corre nas veias, aquela voz que os leva a matarem-se uns aos outros… aqui neste nosso cantinho português as pessoas refugiam-se no chamado “espírito Natalício”… procura-se deixar as nossas desgraças e as dos outros em “stand by” ali na primeira gaveta e esperar que o Natal passe e que o novo ano que se aproxima subitamente torne as coisas melhores e mais fáceis. Vamos esquecer os PIGS, o FMI, o Sócrates, a Galp, as casas e os empréstimos, os bancos, o carro, o açúcar, os assassínios, a inauguração do troço Grândola-Alcácer e pensar só no menino Jesus… e comer, comer, comer até esquecer…
Mas eu não consigo esquecer… e assim como quem não quer a coisa, sinto-me como que imune a tudo isto… não propriamente imune às coisas em si, afinal estou aqui no meio e estou tão sujeito como todos os outros… mas… o processo cognitivo de me aperceber dos acontecimentos e sentir aquela pequena inquietude, ver, de repente, a minha vida a passar à minha frente, seja a família, o trabalho, a casa, e tremer com aquele arrepio na espinha… isso… não. Nao vejo o aproximar-se do Natal nem o Novo Ano com aqueles olhos de quem alimenta a esperança de, subitamente, poder sentir o alívio e largar o ar, aquele ar que susteve durante todo ano…
Vejo o noticiário e não posso deixar de ouvir tudo aquilo como que um ruído de fundo… murmúrios, por vezes, ao meu ouvido. Vejo as pessoas, na rua, a irem de A para B, a pensar que têm que fazer C e que não se podem esquecer de que amanhã é dia de D porque se não, F não dá e não chega para pagar E. Depois H e J vão sofrer com a falta de I, já para não falar que L e M… ui sabe-se lá!… isso é talvez a única coisa que tenho em comum com elas… não é desgraças nem eventos nem Natal nem Ano Novo… são letras, são números, são linhas, são reticências, são linhas interrompidas, são pequenas coisas, que agora estão sempre presentes no meu pensamento… São ideias, são fios de raciocínos que me inundam a cabeça. e não me deixam ver mais nada. Não me deixam preocupar com o mundo, não me deixam sentir aquela leve esperança que as pessoas sustentam… Quem me dera sequer poder crispar uma mínima gota desse sorriso, esse piscar de olhos, esse pontinho de luz que espreita por esse orifício de 2011…
Mas nada disso se insurge na minha mente… há uma fina capa de indiferença que me deixa aqui prostrado no meu trono de desprezo… Na minha mão ostento um núcleo de vazio, que emana um frio seco e incontornável. E por fora tenho uma espécie de bolha, uma esfera que não me deixa sair, não me deixa estender a mão… mas suficiente ténue para que todos os sinais exteriores cheguem a mim. Mas eu, imerso nesta nébula de incerteza, de revolta minguada, de fúria gelada aqui permaneço, atento, mas em silêncio.
A Merdosfera que me protege e, simultaneamente, me trai.
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